Após impasse, partido de Evo já admite encerrar Constituinte

Motivo é a disputa sobre qual cidade, La Paz ou Sucre, deve ser a capital da Bolívia

AFP e Efe, La Paz, O Estadao de S.Paulo

26 de setembro de 2007 | 00h00

O partido Movimento ao Socialismo (MAS), do presidente boliviano Evo Morales, admitiu ontem a possibilidade de encerrar os trabalhos da Assembléia Constituinte sem a aprovação de uma nova Constituição para o país. O motivo é o impasse sobre qual cidade - La Paz ou Sucre - deve abrigar as sedes do Legislativo e do Executivo bolivianos. Apesar de Evo ter negado tal possibilidade, o líder do partido governista na Constituinte, Román Loayza, não descartou o fim prematuro da instituição. Os deputados constituintes têm até 14 de dezembro para entregar a nova Constituição boliviana - mas, após um ano de trabalho, não conseguiram aprovar nenhum artigo. "O tema da capital pode tornar nossa vida difícil e, se isso acontecer, eu também, como bancada nacional, estou de acordo com o fechamento", afirmou Loayza ao jornal boliviano La Razón.Inaugurada em agosto de 2006 com a proposta de "refundar" o país mais pobre da América Latina, a Assembléia Constituinte está em recesso há mais de um mês por causa da disputa. Sucre é a capital constitucional da Bolívia, mas só abriga o Poder Judiciário. La Paz conquistou o direito de sediar o Legislativo e o Executivo em 1899, após uma guerra civil."Em duas semanas temos de definir o encerramento da Constituinte porque já não podemos mais agüentar", disse Loayza. "O povo votou por uma nova Constituição e não por mais conflitos." Para acelerar a reabertura da Constituinte, em 1º de outubro vence o prazo para que uma comissão multipartidária apresente propostas sobre os temas debatidos que causaram mais controvérsia. No entanto, essa comissão - criada na semana passada - ainda não realizou nenhuma sessão. "Estamos na UTI", resumiu o deputado governista Marco Carrillo.A vice-presidente do MAS na Assembléia, Mirtha Jiménez, afirmou que o encerramento prematuro dos trabalhos seria a "quebra de um processo histórico". De acordo com ela, evitar o fracasso da Constituinte é uma questão de "vida ou morte" para o partido. Mesmo assim, ela também não descartou o fim do fórum. "Lamentavelmente, o fechamento está cada dia mais próximo", afirmou Mirtha. Segundo ela, o impasse referente à mudança das sedes do Legislativo e do Executivo torna inviável o processo das forças políticas - tanto dentro como fora da Assembléia - de chegarem a um acordo sobre o tema. O porta-voz do Podemos, aliança política que representa a principal força opositora, afirmou que o governo será o principal responsável pelo fracasso da Constituinte.Em um encontro com jornalistas em Nova York, o presidente Evo Morales ignorou a possibilidade de o país não ter uma nova Constituição. "Vamos seguir apostando na Assembléia Constituinte", disse Evo. Em seu projeto inicial, o presidente pretendia dar mais poderes aos indígenas e restabelecer o controle estatal sobre a economia do país. "A Assembléia Constituinte é a melhor forma de realizar mudanças na democracia", afirmou Evo.Além da questão da mudança de capital, a Constituinte teve outros impasses, como o tema da autonomia dos Departamentos (Estados) bolivianos, a maneira com a qual seriam realizadas as votações e como compilar e processar cerca de 3 mil propostas de artigos feitas pela sociedade civil.OS IMPASSES DA ASSEMBLÉIA Mudança da capital: Sucre, capital constitucional, que abriga apenas o Poder Judiciário, quer também ser sede do Legislativo e do Executivo, que atualmente estão em La Paz Autonomia: Os Departamentos (Estados) bolivianos de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando exigem que o governo de Evo dê ?autonomia departamental plena? às regiões Votação: A oposição exigia que, para aprovar os artigos da Constituinte, seria necessário obter dois terços dos votos dos deputados, enquanto o partido governista, MAS, insistia na aprovação por maioria simples. A oposição ganhou a disputa

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