Jamal Taraqai/EFE/EPA
Jamal Taraqai/EFE/EPA

Regime afegão amplia risco de radicalização no vizinho Paquistão; leia análise

Vitória cinematográfica incendiou grupos terroristas que empreendem uma insurgência sangrenta e impulsionou partidos religiosos de linha dura que buscam remodelar o país sob um regime islâmico fundamentalista

Gerry Shih, Shaiq Hussain e Haq Nawaz Khan, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2021 | 05h00

Nas duas semanas desde que Cabul caiu nas mãos do Taleban, em 15 de agosto, as vozes políticas rebeldes do Paquistão se uniram em um raro momento de uníssono.

Imran Khan, o primeiro-ministro do Paquistão, aplaudiu os afegãos por se libertarem das “algemas da escravidão”. Seus oponentes políticos, entre eles líderes de partidos islâmicos, parabenizaram o Taleban por sua “vitória histórica” sobre o imperialismo americano. Meia dúzia de generais da reserva do exército paquistanês celebraram publicamente. O mesmo fizeram grupos extremistas que são inimigos declarados dos generais e do governo paquistanês.

Mas, em meio ao júbilo generalizado, o Paquistão está começando a reconhecer os efeitos desestabilizadores que atravessam a fronteira afegã. A cinematográfica vitória do Taleban não só incendiou grupos terroristas que empreendem uma insurgência sangrenta dentro do Paquistão, como também impulsionou partidos religiosos de linha dura que buscam remodelar o Paquistão sob um regime islâmico mais fundamentalista.

O resultado, dizem analistas e ex-autoridades paquistanesas e americanas, é um dilema renovado para um establishment militar paquistanês que, desde o final dos anos 1970, tentou controlar estrategicamente – mas também conter cuidadosamente – o explosivo aumento do fervor religioso no país.

De uma extensa cidade no sul a um seminário do noroeste conhecido por seus laços com grupos de combatentes, líderes religiosos e políticos conservadores estavam otimistas com o retorno do Taleban.

Em um parque de Karachi, Maulana Fazl-Ur Rehman, um líder da oposição política que apoia o Taleban, mas recusa uma luta violenta dentro do Paquistão, citou a vitória do Taleban ao conclamar uma “revolução” eleitoral para derrubar Khan. Na quinta-feira, um político ainda mais conservador, Maulana Hamid ul Haq – filho de um clérigo sunita conhecido como o “pai do Taleban” – disse a seus seguidores que o grupo havia estabelecido “paz e segurança incomparáveis no Afeganistão”, provado as deficiências da democracia e inspirado uma “luta árdua para termos um verdadeiro sistema islâmico no Paquistão”, de acordo com um comunicado distribuído pelo grupo de Haq.

Muhammad Amir Rana, diretor do Instituto Paquistanês de Estudos para a Paz em Islamabad, disse que a tomada do Taleban no vizinho Afeganistão já está afetando o Paquistão de maneiras que terão vastos desdobramentos.

“Com o controle do Taleban, os grupos terroristas anti-Paquistão se sentirão encorajados, mas as coisas não param por aí”, disse Rana. “Pode haver o surgimento de uma nova guerra de narrativas no país, que transformará os debates em curso sobre o Estado, a sociedade e o papel da religião”.

Tanto grupos extremistas quanto não violentos, acrescentou ele, “vão pensar: ‘Se o domínio islâmico pode vencer no Afeganistão, por que não pode vencer aqui?’”.

Autoridades paquistanesas dizem que sua preocupação mais imediata é o ressurgimento de uma coalizão de grupos milicianos conhecida como Tehrik-e-Taliban Paquistão (TTP), ou Taleban paquistanês, que é aliado do Taleban afegão e realizou quase 1.800 ataques contra o Estado do Paquistão e alvos civis na última década. Depois de saudar a “vitória abençoada” do Taleban no Afeganistão, o TTP reivindicou outro ataque na semana passada, no qual homens armados cruzaram o Afeganistão e mataram dois soldados na região tribal do norte do Paquistão.

Um relatório do Conselho de Segurança da ONU estimava, em julho, que o TTP tinha 6 mil combatentes treinados no lado afegão da fronteira. Um relatório de junho disse que o Taleban e o TTP mantinham seu relacionamento. Enquanto varria o Afeganistão no mês passado, o Taleban libertou das prisões centenas de milicianos, entre eles líderes do TTP.

Mushahid Hussain Syed, presidente do Comitê de Defesa do Senado do Paquistão, disse que o país havia estabelecido “linhas vermelhas” para o Taleban, para alertar o grupo contra a proteção ao TTP. “Há muita cautela, por causa do histórico do Taleban e de sua afinidade com os inimigos de morte do Paquistão, como o TTP”, disse Syed. “Mas também há otimismo, porque, desta vez, o Taleban afegão está mais moderado”.

Um ex-comandante de alto escalão do TTP, que falou por meio de um aplicativo de mensagens e sob a condição de anonimato, disse que o Paquistão recentemente pediu ao Taleban que obrigasse os combatentes do TTP a entregar suas armas em troca de anistia.

O Taleban respondeu que não entregaria membros do TTP, mas os pressionaria a manter negociações de paz com o governo do Paquistão, disse o ex-líder do TTP, acrescentando que a influência do Taleban era limitada. “Se o Taleban afegão tentar pressionar o TTP, então alguns de seus comandantes podem se juntar ao Estado Islâmico-Khorasan”, disse ele, referindo-se a um grupo miliciano rival que reivindicou a autoria de um bombardeio próximo ao aeroporto de Cabul que matou mais de 170 pessoas.

O tenente-general Faiz Hameed, chefe da principal agência de inteligência do Paquistão, a Inter-Services Intelligence, viajou para Cabul no sábado para discutir questões de segurança e comércio com líderes do Taleban, segundo autoridades paquistanesas com conhecimento do assunto, que falaram sob a condição de anonimato.

Depois de minguar sob anos de ofensiva do exército paquistanês, o TTP se reagrupou em 2018 sob um novo líder, Noor Wali Mehsud, “que agora está se preparando para dar o troco”, disse Amira Jadoon, especialista em contraterrorismo na Academia Militar dos Estados Unidos em West Point. Nos mais recentes materiais de propaganda do grupo, Mehsud retratou a organização como algo que espelha o Taleban vitorioso: nacionalistas tentando derrubar um governo corrupto.

“Eles veem o Taleban afegão como um exemplo a seguir”, disse Jadoon.

Além das forças milicianas, dizem os observadores, a tomada do Taleban no Afeganistão também adiciona um elemento volátil à política que vem se desenrolando nas ruas do Paquistão.

Desde que se voltou para uma orientação mais islâmica na década de 1980, sob o general Mohammed Zia ul-Haq, que derrubou o primeiro-ministro esquerdista Zulfikar Ali Bhutto em um golpe de estado, o país vem testemunhando repetidamente o crescente poder – e o potencial desestabilizador – dos partidos religiosos ultraconservadores.

Nos últimos anos, esses grupos entraram em confronto com o governo para exigir punições mais severas para supostos casos de blasfêmia ou para a adoção de códigos jurídicos islâmicos. Embora esses grupos evitem as eleições, eles efetivamente pressionam o governo ao atrair multidões de apoiadores dos seminários para as ruas, disse Ayesha Siddiqa, pesquisadora do SOAS South Asia Institute da Universidade de Londres.

“O governo estará sob maior pressão para deixar o estado mais compatível com a sharia, agora que o Taleban está fazendo isso na vizinhança”, disse ela.

Pouco depois da eleição de Khan, em 2018, um grupo ultrareligioso chamado Tehreek-i-Labaik (TLP) enfrentou a polícia e provocou confrontos em cidades do Paquistão quando uma mulher cristã foi absolvida em um caso de blasfêmia. Os manifestantes voltaram a protestar contra o elogio do presidente francês, Emmanuel Macron, a um professor de francês que fora decapitado por um islâmico radical. Em abril, Khan baniu o TLP e prendeu seu líder, gerando outra onda de revolta que só arrefeceu quando os militares interferiram nos bastidores.

O gabinete de Khan não respondeu a um pedido de comentário.

Os generais paquistaneses muitas vezes são acusados de apoiar secretamente radicais islâmicos com o intuito de avançar seus objetivos de política externa, particularmente contra a Índia – uma acusação que eles negam. Mas esses generais também expressaram preocupação com a tendência de exacerbação do sentimento religioso em território nacional.

O chefe do exército, general Qamar Javed Bajwa, disse em 2017 que havia mais de 2 milhões de alunos em madrassas, ou escolas religiosas, e que muitos não estavam recebendo uma educação “mundana”.

“Então, no que eles vão se transformar? Eles serão clérigos ou serão terroristas?”, Bajwa disse em um discurso. “Precisamos analisar e reelaborar o conceito das madrassas”.

Em reuniões com autoridades americanas, funcionários de segurança do Paquistão expressaram preocupação com o aumento do fervor religioso, especialmente durante episódios de agitação por causa de casos de blasfêmia, disse Douglas London, ex-chefe de contraterrorismo no sul e sudoeste da Ásia da CIA, que se reunia frequentemente com militares e agentes de inteligência do Paquistão antes de se aposentar em 2019.

London descreveu reuniões em que esses oficiais, quando informados por dados da inteligência americana, relutavam em reprimir certos líderes religiosos ou escolas, por medo de serem minoria em um confronto violento.

“Havia madrassas das quais eles nem chegavam perto”, disse London, que escreveu um livro de memórias sobre sua carreira, intitulado The Recruiter. “Agora imagine tudo isso se transformando num movimento nacional contra eles”, disse London. “O aumento do extremismo que enfrentam agora é uma ameaça real para eles”.

Talat Massood, um general aposentado do exército paquistanês, reconheceu a ansiedade de que um novo governo em Cabul possa ocasionar a uma “talebanização” da sociedade paquistanesa. Mas esses temores são exagerados, disse ele, por um motivo simples: o Paquistão sempre exerceu uma influência muito maior sobre o Afeganistão.

“O fato é que, em termos de influência, não se trata de um tráfego de mão dupla”, disse ele. “É uma via de mão única”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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