Mandel Ngan/AFP
Mandel Ngan/AFP

Após lançar cloroquina como solução, Trump deixa de defender droga

Presidente americano abraçou a ideia de que a cloroquina serviria como tratamento para os infectados pelo novo coronavírus antes da comprovação científica da ideia

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2020 | 15h11

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, abraçou a ideia de que a cloroquina serviria como tratamento para os infectados pelo novo coronavírus antes da comprovação científica da ideia. Contrariando médicos e especialistas de dentro da Casa Branca, o americano vendeu, em 19 de março, a esperança de que a droga "muito poderosa" poderia ser usada na batalha contra a covid-19.

"Se não sair como planejado, não vai matar ninguém", disse Trump. Mas desde o fim de abril o americano tem silenciado sobre a droga e, quando menciona o medicamento anti-malária, relativiza o seu sucesso.

"Nós temos muitos bons resultados e temos alguns resultados que talvez não sejam tão bons", respondeu Trump em 23 de abril, depois de ser questionado por jornalistas sobre ter parado de defender o uso do medicamento.

O silêncio coincide com a publicação de estudos científicos que questionam a eficácia da droga no tratamento do coronavírus ou apontam efeitos colaterais indesejados nos pacientes. O americano também se viu pressionado pelas acusações feitas por Rick Bright, médico que liderava a agência federal dos EUA envolvida no desenvolvimento da vacina contra coronavírus e foi afastado das funções após exigir comprovação técnica para adoção do remédio. 

Desde a segunda quinzena de abril Trump tem falado poucas vezes sobre o medicamento que defendeu como salvação de forma enfática em entrevistas coletivas diárias na Casa Branca durante quase um mês.

O site americano Politico fez uma revisão nas coletivas e da cobertura de televisão sobre o assunto para concluir, no dia 20 de abril, que Trump e "aliados na mídia conservadora reduziram sutilmente a defesa da hidroxicloroquina como potencial cura para o coronavírus".

No jornal Washington Post, a mudança de rota de Trump foi retratada como "a ascensão e a queda da obsessão de Trump com a hidroxicloroquina". 

O desencontro entre a defesa da cloroquina feita por Trump e a ciência ficava evidente nas entrevistas coletivas concedidas na Casa Branca. Anthony Fauci, uma das principais vozes técnicas na Força Tarefa criada pelo governo americano para conter o vírus e respeitado especialista em epidemias, era frequentemente questionado por jornalistas sobre a eficácia da drogas, minutos depois de Trump promover o medicamento.

Com o presidente ao lado, Fauci se limitava a dizer que os testes com a hidroxicloroquina eram, no máximo, "sugestivos", mas que ainda precisavam de confirmação. Em um dos briefings, Trump impediu que um jornalista refizesse a Fauci perguntas sobre a droga.

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"Você sabe quantas vezes ele já respondeu a essa pergunta? Ele não precisa responder", disse o presidente. Duas pessoas morreram nos EUA após se automedicarem com uma forma de cloroquina.

"O que temos a perder?", chegou a dizer Trump ao falar sobre o uso da droga.

O argumento de que é melhor arriscar e tomar a medicação é contestado por especialistas. "Pode fazer mal para pacientes que já estão em uma posição vulnerável. Mesmo os mais doentes têm muito a perder com mau uso de medicamentos", disse Luciana Borio, ex-diretora para preparação médica e de biodefesa do Conselho de Segurança Nacional, que assessora a Casa Branca, e ex-cientista chefe do FDA, agência reguladora de drogas e alimentos nos EUA.

Não só o presidente Trump, mas também a Fox News deixou de lado a defesa do uso da cloroquina como resposta à covid-19, o que foi notícia nos principais veículos de comunicação americanos. A emissora de TV preferida do atual governo americano transmitia histórias de pacientes convictos de que a droga tinha sido a razão de sua recuperação.

Em entrevistas ao vivo com os recuperados, os comentaristas da Fox costumavam apontar como o remédio poderia operar "milagre" apesar de estar sendo criticado no debate público. Laura Ingraham, apresentadora do canal, disse em uma dessas ocasiões: "Você (paciente recuperado) descreveu uma recuperação milagrosa e ainda assim as pessoas estão descartando e dizendo 'Ah, azitromicina e hidroxicloroquina não estão comprovadas'". 

Desde o fim de abril, no entanto, as entrevistas e comentários positivos sobre a droga diminuíram. Em 21 de abril, a emissora divulgou em um dos seus programas o estudo mais recente feito nos Estados Unidos que mostrava que a droga usada para malária não tinha benefícios no tratamento da covid-19. 

Segundo a organização Media Matters, que monitora desinformação na imprensa conservadora nos EUA, entre 11 e 15 de abril a Fox mencionou o tratamento 87 vezes. No período seguinte, entre 16 e 20 de abril, o número de menções caiu para 20 vezes, uma redução de 77% na cobertura. A organização já vinha contabilizando a cobertura da cloroquina na Fox desde março.

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