Hassan Ammar/ AP
Hassan Ammar/ AP

Após milhões pedirem saída de Morsi, Exército egípcio dá ultimato ao governo

Forças Armadas pedem que situação e oposição 'atendam às demandas do povo'; 16 já morreram

O Estado de S. Paulo,

01 de julho de 2013 | 17h03

CAIRO - Um dia após milhões de pessoas tomarem as ruas do Egito para exigir a renúncia do presidente Mohamed Morsi, o Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF) divulgou nesta segunda-feira, 1,  um comunicado no qual deu um ultimato de 48 horas para o governo e a oposição “atenderem as demandas do povo”. Desde domingo, 16 pessoas morreram e 781 ficaram feridas em confrontos de rua. Quatro ministros do gabinete de Morsi romperam com o governo.

O comunicado elevou temores entre parte da população egípcia de um retorno das Forças Armadas à cena política. O Exército governou o país por 55 anos, desde a chegada de Gamal Abdel Nasser ao poder até a queda de Hosni Mubarak, há dois anos e meio. Apesar do comunicado, no entanto, os militares prometeram não se envolver na política do país.

“As Forças Armadas repetem seu pedido pelo atendimento às demandas populares e dão a todos 48 horas para a última chance de abarcar o peso deste momento histórico”, disse o general Abdel Fatah al-Sisi. “O Exército egípcio não se envolverá em política, nem na administração pública. Está satisfeito com seu papel, conforme preveem as regras democráticas. Mas a segurança nacional está em grave perigo e o Exército tem a responsabilidade de agir.”

Horas depois do anúncio, Morsi se reuniu com o general Al-Sisi. Espera-se para a noite de hoje um pronunciamento da presidência.

Yasser Hamza, líder do Partido Liberdade e Justiça (PLJ), braço político da Irmandade Muçulmana, afirmou que nenhuma instituição do Estado vai promover um golpe contra Morsi e alertou contra interpretações equivocadas de quaisquer comunicados do Exército do país. “Qualquer força que for contra a Constituição, é um chamado à sabotagem e anarquia”, disse. O partido salafista Al-Nur, segunda maior força política islâmica, disse “temer” a volta do Exército à cena política.

Já o ex-primeiro-ministro egípcio Ahmed Shafiq, um dos colaboradores de Mubarak, derrotado por Morsi nas eleições do ano passado, declarou que o “reinado da Irmandade acabará até o fim da semana.”

Em meio à tensão política, quatro ministros renunciaram em solidariedade aos manifestantes. São eles os chefes das pastas do Turismo, Hisham Zaazou; da Comunicação , Atef Helmi; de Assuntos Jurídicos, Hatem Bagato; e do Meio Ambiente, Khaled Abdel-Al.

Mobilização. No começo da tarde, uma multidão de manifestantes voltou a se reunir nos arredores da Praça Tahrir, berço dos protestos que derrubaram a ditadura militar e agora pedem a saída do governo da Irmandade Muçulmana. Helicópteros do Exército com bandeiras egípcias sobrevoaram o local, as mesmas que, na praça, eram agitadas pelos ativistas.

Em sua maioria, as manifestações dos últimos dois dias foram pacíficas. Houve confronto nos arredores do escritório do PLJ, no Cairo. Armados, partidários de Morsi se entrincheiraram no edifício e atiraram nos manifestantes, que responderam com bombas incendiárias e pedras. O prédio foi invadido e saqueado. Móveis, arquivos e equipamentos foram destruídos.

Primeiro presidente eleito democraticamente na história do país, Morsi é acusado pela oposição secular de tentar impor uma agenda religiosa no país, além de ter se tornado cada vez mais autoritário e de não controlar a crise econômica.

EUA. Na Tanzânia, o presidente americano, Barack Obama, disse que os EUA estão preocupados com a violência no Egito e pediu que haja “moderação” dos dois lados. Obama lembrou que o presidente Morsi “foi eleito democraticamente” e ressaltou que o governo deve agir junto com a oposição para fazer “as melhoras que são necessárias” no país. O Pentágono disse monitorar a situação no país nos próximos dias. / AP, REUTERS e EFE

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