Maxar Technologies / AFP
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Após navio se mover, Egito aposta em lua cheia e maré alta para liberar Suez

Para auxiliar dragagem e rebocadores, presidente egípcio ordena retirada de parte da carga de barco de 219 mil toneladas que bloqueia uma das principais rotas comerciais, com prejuízo diário de US$ 9,6 bilhões; hipótese de falha humana ou mecânica é considerada

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 05h00
Atualizado 29 de março de 2021 | 12h04

A lua cheia é uma das maiores esperanças para o desencalhe do Ever Given, navio de 219 mil toneladas que bloqueia o Canal de Suez, rota pela qual passam 10% do comércio marítimo mundial. A maré alta e uma dragagem permanente permitiram que no sábado à noite pela primeira vez a embarcação se movesse. A retirada de parte da carga, um trabalho complexo, deve ser necessária para destravar a via.

Nesta segunda-feira, 29, a Autoridade do Canal de Suez (SCA, na sigla em inglês), anunciou que a embarcação foi reorientada "80% na direção correta". O serviço de rastreamento de navios VesselFinder também alterou o status do navio para "em andamento", em seu site, às 4h30, horário local.

De acordo com o presidente da SCA, Osama Rabie, mesmo após o desencalhe do cargueiro, serão necessários cerca de três dias e meio para normalizar o tráfego na via marítima, uma vez que mais de 400 navios estão aguardando o desencalhe. "A posição do navio foi reorientada em 80% na direção correta. A popa do navio se afastou 102 metros da margem, quando antes estava a apenas quatro metros".

Rabie comentou ainda que a água subirá de maneira suficiente nas próximas horas "para recuperar totalmente o cargueiro e colocá-lo de novo no meio da via". 

O diretor da Royal Boskalis - empresa matriz da firma contratada para ajudar a desencalhar o porta-contêineres -, Peter Berdowski, afirmou à rádio pública holandesa que o mais difícil ainda está por fazer. "A boa notícia é que a popa está desobstruída, mas isso era o que considerávamos a parte fácil. O desafio continua sendo a parte dianteira", disse .

Uma falha humana ou mecânica está entre as causas avaliadas para o encalhe ocorrido na terça-feira – inicialmente, más condições do tempo eram a principal hipótese. Entre domingo e segunda, a lua ofereceu a chamada maré de primavera, ou maré real, em uma combinação que potencializa os movimentos de subida e descida do mar. Equipes alternavam seus trabalhos no domingo entre dragar areia e puxar o navio.

A Inchacape Shipping, empresa de logística que acompanha a crise, comunicou no Twitter que uma operação de reboque programada seria adiada para cerca das 4 da manhã de segunda (23h de domingo em Brasília). A intenção era aproveitar ao máximo a chegada de dois poderosos rebocadores e “uma maré alta favorável”. Especialistas acreditam que a melhor chance dos últimos dias ocorreria hoje, quando a maré pode aumentar o nível de água do canal em até 45 centímetros.

Apesar da possibilidade, Rabie disse à televisão egípcia que as autoridades estavam se preparando para o “terceiro cenário” de descarregar contêineres do enorme navio para que ele possa voltar a flutuar. O presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sissi, deu ordem no domingo para que isso fosse feito. O descarregamento de alguns dos 18 mil contêineres do navio exigiria guindastes de mais de 60 metros.

As dragas já deslocaram 27 mil metros cúbicos de areia (27 milhões de litros) e o esforço continuará 24 horas por dia de acordo com as condições do vento e das marés. O Ever Given – navio japonês com bandeira do Panamá e operado pela taiwanesa Evergreen – transporta cargas entre a Ásia e a Europa. Ele ficou preso na terça-feira, em um trecho de pista única do canal. Desde então, o tráfego pelo canal foi interrompido, trazendo mais problemas para uma rede de transporte global já afetada pela pandemia do coronavírus. O prejuízo diário é estimado em US$ 9,6 bilhões.

No final do sábado, o navio se moveu – apenas dois graus, ou cerca de 30 metros, de acordo com funcionários da navegação. Foi o sinal mais visível de progresso desde que encalhou. Motoristas de rebocadores soaram suas buzinas em comemoração. Na sexta-feira, dragas haviam conseguido cavar a parte traseira do navio, liberando seu leme.

O general Rabie disse que a água começou a correr embaixo do navio. “Esperamos que a qualquer momento o navio possa deslizar e se mover do local em que está”, disse ainda no sábado. As autoridades alertaram, no entanto, que a proa do navio permanecia firmemente plantada no solo.

Parte da dificuldade para desencalhar o navio vem da tentativa de deixá-lo intacto. As equipes de salvamento estão tentando mover o navio sem desequilibrá-lo ou quebrá-lo.

Com o navio afundando no meio, e a proa e a popa em posições para as quais não foram projetadas, o casco fica vulnerável a tensões e rachaduras. Assim como toda maré alta traz esperança de que o navio possa ser liberado, cada maré baixa coloca nova tensão sobre o barco.

Os navios carregados à espera do desbloqueio transportam desde carros, petróleo iraniano para a Síria, 130 mil ovelhas e laptops. Eles abastecem grande parte do globo enquanto percorrem o caminho mais rápido da Ásia e Oriente Médio para a Europa e a Costa Leste dos Estados Unidos.

Alguns navios decidiram não esperar, dando meia-volta para fazer o caminho mais longo ao redor do extremo sul da África, uma viagem que pode adicionar pelo menos duas semanas ao trajeto e custar mais de US$ 26 mil por dia em combustível.

Se o navio se soltar hoje, o setor de transporte marítimo poderá absorver o impacto da paralisação, mas se isso não ocorrer as cadeias de abastecimento e os consumidores podem começar a ver grandes interrupções. “Cerca de 90% do comércio varejista global se move em contêineres”, disse Alan Murphy, fundador da Sea-Intelligence, empresa de dados e análises marítimas. “Então tudo é impactado. Diga o nome de qualquer marca e ela ficará presa em uma dessas embarcações.” / NYT, AP, WP e AFP

 

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