Após o tremor, os esforços de resgate

Nepal agora depende de países que temem doar a governos duvidosos

O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2015 | 02h03

Uma nuvem de poeira marrom com inúmeros pombos levantou-se sobre Katmandu, capital do Nepal, ao ser atingida pelo terremoto no sábado. A terra tremeu com tamanha violência, enquanto a placa tectônica indiana avançava três metros em direção ao norte, que as pessoas tinham dificuldade para ficar de pé.

O sismo fez tremer as janelas em Nova Délhi, a capital indiana, a mil quilômetros de distância. Partes mais antigas de Katmandu agora não passam de escombros. Uma torre de 62 metros do século 19, a Dharahara, desmoronou. Outros edifícios caíram na Praça Durbar, declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, onde se encontram templos com centenas de anos. Ambos os pontos estavam lotados de moradores e visitantes estrangeiros. Muitos ficaram presos e morreram. Pelo menos um hotel novo também ruiu, matando dezenas de pessoas. Mas a maior parte das estruturas de cimento e vidro da cidade permaneceu de pé, embora os códigos da construção civil do país não sejam obedecidos como deveriam.

Mas as campanhas realizadas por ONGs e pela ONU merecem crédito. Nelas, a mão de obra local aprendeu a reforçar as juntas das vigas de concreto. Centenas de escolas em Katmandu foram reformadas nos últimos anos. Graças a isso, o temor dos especialistas de que 60% da capital fosse destruída em um tremor, matando 100 mil pessoas, não se concretizou.

Graças também à sorte: o sismo principal ocorreu ao meio-dia do sábado, quando as escolas e os escritórios estavam fechados e muitas pessoas estavam na rua. O premiê Sushil Koirala prevê que o número de vítimas poderá chegar a 10 mil. A maioria delas se encontra no Vale de Katmandu, onde nos últimos 20 anos houve uma expansão urbana rápida e desordenada, em parte pela guerra civil que acabou em 2006 e impeliu os aldeões para a capital. As construções do vale são particularmente vulneráveis por estarem sobre camadas de sedimentos nas quais ocorre o fenômeno da liquefação do solo. A reconstrução das áreas devastadas custará US$ 10 bilhões - uma soma enorme para um dos países mais pobres da Ásia.

Três dias depois do sismo, as estradas que saem de Katmandu estavam repletas de pessoas que levavam alimentos e barracas às aldeias vizinhas. No distrito de Kavrepalanchok, a uma hora de carro da capital, os moradores acamparam nos campos em barracas de plástico. Eles se queixam do cheiro dos corpos em decomposição. A água é extremamente escassa, assim como alimentos e remédios. Um casal que buscava no meio dos escombros o corpo da filha de 16 meses disse que não podia contar com a ajuda da polícia.

No distrito próximo de Sindhupalchok, todas as casas de barro apresentaram rachaduras e muitas ruíram. O governo calcula que, ao todo, 530 mil moradias foram danificadas e mais de 70 mil, destruídas. Quase ninguém tinha seguro. A ONU afirma que 8 milhões de pessoas, numa população de cerca de 30 milhões, foram afetadas. O epicentro ocorreu a 80 quilômetros a noroeste da capital, numa área de montanhas escarpadas.

Ao que se informa, deslizamentos de terra varreram aldeias inteiras dos flancos das montanhas. Imagens aéreas mostram casas caindo em meio a círculos de poeira. Uma chuva e frio inusitados nesta época e abalos secundários constantes, deixaram os sobreviventes expostos às intempéries.

Turismo. No Monte Everest, a leste de Katmandu, os tremores provocaram uma avalanche que sepultou ao menos 18 alpinistas. Esta tem sido uma época ruim para o turismo nepalês. Em outubro, tempestades de neve fora de época mataram 43 pessoas numa trilha. E um ano atrás, outra avalanche matou 16. Nada desanima os alpinistas mais determinados, mas a indústria do turismo, fundamental para a sobrevivência de muitos, agora sofreu um forte abalo.

Num discurso no rádio, ouvido em ambos os países, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, prometeu "enxugar as lágrimas de cada nepalês" , acrescentando que o sofrimento do Nepal também é da Índia.

Milhões de migrantes nepaleses vivem e trabalham na Índia, e enviam mensalmente dinheiro a suas famílias. Modi quer ser visto como o líder e está orientando os trabalhos de ajuda melhor do que as próprias autoridades do Nepal. Horas após os primeiros tremores, o Exército indiano já começou fornecer assistência.

Este trabalho de ajuda tem uma dimensão geopolítica. Segundo um assessor do premiê, há uma estratégia indiana de "inspirar mais confiança no exterior", que começa com a conquista de influência na região. Modi visitou duas vezes o Nepal desde que assumiu o cargo, há um ano, após um intervalo de 17 anos sem que nenhum premiê indiano desse a honra de uma visita. Promoveu o investimento indiano na hidrelétrica nepalesa. E o Nepal é um importante beneficiário da assistência financeira da Índia que nos últimos três anos triplicou para US$ 1,5 bilhão.

A China provavelmente está nos cálculos de Modi. Sua influência com frequência parece estar em alta no Nepal, que a Índia considera ser seu quintal.

Diversos países e agências da ONU rapidamente prometeram ajuda financeira. Muitos doadores ofereceram equipes de busca e socorro, hospitais de campanha, cobertores, barracas e equipamentos médicos a ponto de o principal aeroporto em Katmandu ficar superlotado. Um dia após o terremoto, a China enviou uma equipe de socorro do Exército, 13 toneladas de suprimentos e prometeu mais de US$ 3 milhões de ajuda imediata. Também descartou rumores de rivalidade, quando um funcionário da chancelaria referiu-se a um desejo "de coordenar de maneira positiva com a Índia nossos esforços de assistência". O Paquistão enviou barracas e um hospital militar; Israel enviou 95 toneladas de suprimentos médicos e outros tipos de assistência.

Desafios. Quanto ao governo do Nepal propriamente, ele se depara com enormes desafios. As operações de socorro e assistência imediata agora deram lugar a um apoio mais sistemático para os sobreviventes. Distribuir material para abrigos adequados e garantir boas condições sanitárias são prioridades urgentes antes de as chuvas de monção que devem começar em poucos meses. A época da semeadura também terá início em breve, de modo que a distribuição de sementes e suprimentos agrícolas é urgente.

Jamie McGoldrick, diretor das Nações Unidas no Nepal, preocupa-se com o fato de que as áreas rurais e mais remotas, onde vivem os nepaleses de castas inferiores mais pobres que correm risco, possam ser negligenciadas.

Embora as necessidades dos pobres sejam bem maiores, a parte mais substancial da ajuda externa vai para Katmandu, que abriga a elite política, os trabalhadores estrangeiros e grande parte dos monumentos históricos culturais do país. McGoldrick também alerta quanto à frágil capacidade do governo. Segundo ele, as rivalidades burocráticas, como a indolência, são obstáculos aos trabalhos de assistência no país. Outros destacam que os políticos estão muito mais interessados no próprio bem-estar, há sete anos debatem inutilmente uma nova Constituição e prestam pouca atenção a um governo do país.

Os conselhos de administração locais certamente serão os mais úteis no momento. Mas no Nepal não ocorrem eleições municipais desde 1999.

São funcionários públicos que se encarregam de administrar. Muitos são irresponsáveis, corruptos e preconceituosos para com as castas inferiores. Os doadores enfrentam um dilema, se questionando até que ponto podem confiar em parceiros com reputação duvidosa quando se trata de fornecer ajuda.

O Nepal nunca foi um lugar fácil para esta ajuda ser bem utilizada. Nesta grave situação de emergência, isso será ainda mais difícil.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ANNA CAPOVILLA E TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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