AP Photo/Juan Karita
AP Photo/Juan Karita

Ex-presidente da Bolívia é achada em cama box e presa acusada de golpe

Em sua conta no Twitter, Áñez disse que prisão se trata de 'um ato de abuso e perseguição política'; ela é acusada de 'sedição e terrorismo' e tentou se esconder em uma cama box quando a polícia chegou

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2021 | 04h08
Atualizado 14 de março de 2021 | 03h00

LA PAZ - A ex-presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, foi presa na madrugada deste sábado, 13, na cidade de Trinidad, capital do distrito de Beni. Añez é acusada de "sedição e terrorismo" durante a crise política de outubro e novembro de 2019, que levou à renúncia de Evo Morales. O Ministério Público boliviano ordenou a prisão da ex-presidente na sexta-feira, 12. Quando a polícia chegou, ela tentou se esconder dentro de uma cama box.

A televisão boliviana mostrou Áñez chegando ao aeroporto de El Alto, que serve a La Paz, momento em que ela acusou sua prisão como "ilegal". Junto a ela, que não estava algemada, estavam o ministro de Governo, Carlos Eduardo del Castillo, e vários policiais. 

“É um ultraje absoluto, eles nos acusam de ser cúmplices de um suposto golpe”, disse Anez à televisão local ao chegar em um avião militar no aeroporto de La Paz sob forte escolta policial. Não há um grão de verdade nas acusações. É uma simples intimidação política. Não houve golpe. Eu participei de uma sucessão constitucional".

"Informo ao povo boliviano que a senhora Jeanine Áñez já foi apreendida e neste momento está nas mãos da polícia", anunciou antes Del Castillo em suas contas do Twitter e Facebook, parabenizando as forças de ordem pelo seu "grande trabalho (...) nesta grande e histórica tarefa de fazer justiça ao povo boliviano".

Informo al pueblo boliviano que la señora Jeanine Añez ya fue aprehendida y en este momento se encuentra en manos de la Policía. #Justicia Publicado por Eduardo Del Castillo Del Carpio em  Sexta-feira, 12 de março de 2021

Minutos depois da postagem, Jeanine se pronunciou em sua conta no Twitter e afirmou que o partido governista, o Movimento ao Socialismo (MAS), ordenou que fosse presa "em um ato de abuso e perseguição política". “Me acusa de ter participado de um golpe que nunca aconteceu. Minhas orações pela Bolívia e por todos os bolivianos”, disse.

Segundo informações do jornal boliviano La Razón, Áñez foi presa e submetida a um interrogatório em Trinidad, sendo transferida para La Paz em seguida. Ainda de acordo com a publicação, também foram detidos durante a madrugada os ex-ministros Álvaro Coimbra (Justiça) e Rodrigo Guzmán (Energia), que integravam o gabinete de Áñez. Eles foram levados para La Paz, para prestarem depoimento.

O MP boliviano também pediu a detenção – a instituição conta com essa prerrogativa no país andino – do ex-comandante das Forças Armadas general William Kaliman e do ex-chefe da polícia Yuri Calderón por terem pedido então a renúncia de Evo. 

A ordem de prisão foi dada no momento em que o MAS exige um julgamento por golpe de Estado contra vários opositores e ex-líderes militares.

O general Kaliman e Calderón pediram publicamente a renúncia de Evo em novembro de 2019, quando o país enfrentava protestos que deixaram 36 mortos após denúncias de fraude nas eleições. A crise precipitou a renúncia de Evo, que tinha sido reeleito para um quarto mandato até 2025. 

Kaliman ainda não foi preso e Calderón não foi encontrado em sua casa para assumir sua defesa no julgamento por sedição e conspiração em que Jeanine também está sendo investigada.

Classe política reage à prisão

O ministro da Justiça, Iván Lima, e o presidente do Senado, Andrónico Rodríguez, afirmaram que a Justiça está agindo com independência do poder político e negaram uma perseguição. "Nós não podemos interferir nos casos levados pelo Ministério Público e pela Justiça. São casos que eles devem tratar com objetividade e independência", afirmou Lima.

Rodríguez reiterou, separadamente, a narrativa oficialista de que no final de 2019 houve um golpe de Estado e ressaltou que o que está acontecendo agora "não é perseguição, é justiça".

Os ex-presidentes da Bolívia - o centrista Carlos Mesa (2003-2005) e o direitista Jorge Quiroga (2001-2002) - rejeitaram separadamente as prisões e ordens de prisão. Ambos foram atores-chave para a transição do governo de Morales para o de Áñez em 2019.

"Estamos em um processo de perseguição política pior do que nas ditaduras. Está sendo executado contra quem defendeu a democracia e a liberdade em 2019", disse Mesa no Twitter./ EFE, Reuters e AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.