Após os chineses, agora é a vez dos indianos invadirem a África

Mais discreta, Nova Délhi disputa recursos do continente com Pequim

Mariana Della Barba, O Estadao de S.Paulo

21 de abril de 2008 | 00h00

Ao perceber que precisava expandir seu mercado para sustentar um crescimento econômico anual de mais de 10%, a China aportou na África. Em peso. E, sob a lente de aumento dos Jogos Olímpicos, esses negócios não são mais segredo. Ao contrário: acordos com o Sudão são um dos alvos preferidos de ativistas, que acusam Pequim de fomentar o massacre em Darfur, vendendo armas para o governo.Mas, sem alarde, uma outra invasão vem tomando conta do continente africano. Agora, são os indianos que estão redescobrindo a África. O interesse indiano pelos países africanos tem duas raízes. A primeira é econômica, já que, assim como a China, a Índia precisa importar petróleo, gás e outros recursos naturais para acompanhar seu crescimento de 9% ao ano. O segundo interesse dos indianos os coloca do lado oposto dos chineses. Nova Délhi quer barrar o expansionismo de Pequim e recuperar pelo menos parte do terreno que perdeu. Nos anos 90, os negócios da Índia na África superavam os da China. Hoje, o comércio indo-africano é de cerca de US$ 18 bilhões, enquanto o sino-africano bate os US$ 60 bilhões."Se comparada com a China, a Índia está se posicionando na África como um poder mais brando. Nova Délhi argumenta que pode trazer mais valor agregado que seus concorrentes chineses", disse ao Estado o britânico Alex Vines, diretor do programa de África do centro de estudos Chatham House, com sede em Londres. "A verdade é que os indianos estão competindo com quem tem muito mais bala na agulha. Essa é uma corrida que em curto prazo a Índia não pode nem precisa vencer."Angola é um bom exemplo de como a balança ainda pesa para o lado chinês. A companhia indiana de petróleo e gás ONGC Videsh acreditava que venceria a concorrência para explorar um campo petrolífero no país oferecendo US$ 200 milhões. No último minuto, foram surpreendidos pelos chineses, que venceram a disputa com uma oferta de US$ 2 bilhões.Mas nessa nova partilha da África, algumas políticas dos indianos vêm lhes dando vantagem. "Um das maiores críticas a Pequim é que eles importam trabalhadores chineses e não transferem muita tecnologia aos africanos", explica a sul-africana Neuma Grobbelaar, analista do South African Institute of International Affairs, que pesquisa investimentos no continente. "Já os negócios indianos envolvem trabalhadores locais e há passagem de conhecimento, até porque eles enfrentam desafios semelhantes." A pobreza é um deles: cerca de 800 milhões de indianos e 500 milhões de africanos vivem com menos de US$ 2 por dia.O avanço indiano vem chamando a atenção dos países europeus e já recebeu elogios de líderes como o britânico Gordon Brown. No entanto, achar que os indianos são os mocinhos e os chineses, os bandidos é simplificar demais o cenário. "Diante da atuação agressiva da China, o Ocidente acaba aplaudindo a indiana. Mas faz isso também como um modo de reconhecer o crescimento da Índia", explica Vines. Para o queniano Firoze Manji, cientista político do instituto Fahamu, "a Índia vem usando as mesmas táticas que a China, só que sem tanta publicidade. À medida que a competição pelo petróleo da África se acirra, o Ocidente vai perceber que a Índia também pode ser uma ameaça".Deixando de lado o mérito das estratégias de Pequim e Nova Délhi, essa competição é uma ótima oportunidade para a África crescer. "Jogar um contra o outro dá aos africanos a chance de obter negócios mais vantajosos", afirma Manji, acrescentando que o fundamental é transformar esse comércio em benefício social e não em aumento de lucro para companhias estrangeiras. "Se não, o investimento, seja chinês ou indiano, transforma-se em apenas uma palavra bonita para exploração."Mas Manji acredita que poucos líderes africanos estão fazendo isso: "O problema é que muitas elites do continente têm interesses em ter investimentos fora do país." Neuma, porém, lembra que muitos acordaram para o fato de que o boom de commodities é uma chance imperdível e estão revisando seus contratos com empresas e governos estrangeiros, principalmente os de petróleo e mineração. "O importante é não tornar essa competição entre China e Índia em uma corrida de 100 metros", diz Neuma. "O que os africanos esperam é que a necessidade de recursos de duas das maiores economias emergentes do mundo traga benefícios também a longo prazo." ONDE A ÍNDIA INVESTESudão: US$ 200 milhões para construção de um oleodutoZimbábue: US$ 40 milhões em comércio bilateralMadagáscar: US$ 2,5 milhões na construção de um posto de vigilância do Oceano ÍndicoIlhas Maurício: US$ 1,9 bilhão em comércio bilateralGabão e Nigéria: Atuação da petrolífera indiana ONGCMoçambique e Ilhas Seychelles: Acordos na área de DefesaAngola e República Democrática Congo: Empréstimos

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