Mohamed al-Sayaghi/Reuters
Mohamed al-Sayaghi/Reuters

Após pacto com líder, revolta mata 5 no Iêmen

Manifestantes criticam acordo que dá imunidade judicial a presidente afastado e exigem julgamento

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2011 | 03h04

A decisão do presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, de deixar o poder em troca de imunidade judicial não foi suficiente para acabar com os protestos e com a violência que assola o país. Ontem, milhares de iemenitas voltaram às ruas da capital, Sanaa, para pedir o julgamento do líder afastado. Cinco manifestantes foram mortos, supostamente por apoiadores de Saleh.

 

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"A maioria está feliz. Quem não estaria feliz com esse desfecho, após 33 anos de ditadura e 10 meses de caos?", disse ao Estado, por e-mail, Doyazan Ahmed Mohamed, de 30 anos, que participou das manifestações antigoverno, mas discorda dos novos protestos. "Tivemos uma noite de festa e todos fomos para as ruas celebrar. Houve tiros para o alto, em comemoração à saída do presidente. Mas ainda há insatisfeitos, com fome de sangue e de vingança."

Ex-funcionário da companhia de telefonia móvel do Iêmen, a SabaFon, Mohamed está desempregado e, como a maioria dos seus amigos, sem acesso à comunicação por telefone desde junho, quando o presidente mandou cortar as linhas da empresa - 61% das ações da SabaFon pertencem a seu principal opositor, Hamid al-Ahmar.

Ahmar é um dos homens que rejeitaram o acordo assinado na quarta-feira por Saleh na Arábia Saudita, com apoio dos EUA, incitando novos protestos. "O presidente cortou as linhas de telefone por razões políticas", disse Mohamed. "Já Ahmar é um egocêntrico, preocupado só em chegar ao poder. Se você olhar com cuidado para o que está ocorrendo no Iêmen, verá que grande parte do problema vem de uma disputa pessoal entre os dois."

No acordo assinado, Saleh transfere o poder para o vice-presidente, Abd-Rabbu Mansour Hadi, e promete formar um novo governo de unidade nacional. A nomeação de um primeiro-ministro é esperada para os próximos dias. Ele deverá liderar a formação do governo interino, com poderes divididos entre o atual regime e a oposição, até a realização das eleições presidenciais, dentro de 90 dias.

Parte dos opositores alega, porém, que os envolvidos no acordo são antigos aliados de Saleh. "É uma guerra por poder e nós estamos no meio", acredita Mohamed, que defende um governo federado. "Mas ainda temos um longo e incerto caminho pela frente rumo à estabilidade. Que Deus nos proteja."

O líder da coalizão de opositores que assinou o acordo com Saleh, Abdullah Obal, disse ontem que pretende se reunir com manifestantes e discutir suas exigências. "O acordo não inviabiliza nem é contrário às demandas", disse Obal a jornalistas em Sanaa. "Protestar é um direito."

Imunidade. Muitos ainda duvidam que o acordo significará o fim político de Saleh. E pedem que o ditador afastado seja julgado por crimes, que vão desde corrupção até morte de centenas de manifestantes durante os protestos ocorridos no rastro da Primavera Árabe.

"Não à imunidade para o assassino", gritavam ontem manifestantes na capital e na cidade de Taiz, também tomada por protestos. Segundo testemunha, homens usando roupas civis surpreenderam os ativistas e dispararam contra eles na Rua Zubay, em Sanaa, matando pelo menos cinco. Outros atiraram pedras, exibindo cartazes com a foto do presidente.

"Homens leais ao governo abriram fogo de telhados, de dentro das lojas e de um carro em movimento", disse à Reuters Ibrahim Ali, de 22 anos, atendido em um hospital local após ser atingido no joelho. Segundo testemunhas, forças de segurança do governo se juntaram aos milicianos contra os manifestantes.

Saleh é o quarto líder da região a deixar o poder após a onda de levantes que derrubou os regimes na Tunísia, no Egito e na Líbia. O Iêmen é o mais pobre país da Península Arábica e, desde o início dos protestos, há dez meses, sua já frágil economia estagnou, principalmente no setor do turismo.

A miséria, a insatisfação com o governo e a falta de perspectivas dos iemenitas fizeram do país um campo de recrutamento da rede terrorista Al-Qaeda.

"Nós vamos continuar lutando até que Saleh seja julgado por todos os crimes que cometeu contra o povo na condição de chefe das forças de segurança", disse o ativista Bushra al-Maqtari, em Taiz, também atingida pela nova onda de protestos. 

 

COM REUTERS E AP

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