REUTERS/Khalil Ashawi
REUTERS/Khalil Ashawi

Após anúncio de saída americana, curdos propõem aliança com Assad

Milícias curdo-sírias pediram a Damasco ajuda para enfrentar ofensiva da Turquia no norte da Síria

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2018 | 16h08
Atualizado 29 de dezembro de 2018 | 16h42

BEIRUTE - As milícias curdo-sírias Unidades de Proteção Popular (YPG, na sigla em curdo), as mais poderosas da Síria, pediram ao governo de Bashar Assad que envie forças para protegê-las de um ataque da Turquia. O pedido foi o primeiro sinal de uma mudança das alianças políticas na Síria desde o anúncio do presidente americano, Donald Trump, de retirada das tropas dos EUA e ocorre seis anos depois de os curdos romperem com Damasco. 

O que está em jogo é uma grande parte do território norte e leste sírio que os EUA, em parceria com milícias curdas locais, retomaram do Estado Islâmico. Hoje, cerca de um quarto do território da Síria, incluindo terras agrícolas e reservas de petróleo, está sob o controle das milícias apoiadas pelos EUA e seus 2 mil soldados. 

Mas a crescente influência dos combatentes sírios-curdos enfureceu a Turquia, que prometeu um ataque em breve. Ancara tem receios sobre a possibilidade de que eles consigam algum tipo de autonomia que tenha impacto nas reivindicações dos cerca de 15 milhões de turcos de etnia curda.

O controle curdo dessa região também não é bem visto pelo governo Assad e seus aliados russos e iranianos, que querem todo o território sob o controle total de Damasco novamente. 

Até agora, as diferentes forças envolvidas no conflito sírio vinham evitando atacar a região por temer provocar os EUA. Mas o anúncio surpreendente de Trump na semana passada liberou a área para a disputa de poder diante do vácuo a ser deixado pelos americanos, que devem concluir a retirada até abril.

Os curdos consideraram a decisão do presidente americano uma traição e começaram a conversar com Damasco sobre a possibilidade de uma reconciliação. 

As YPG pediram ajuda hoje para proteger o norte e informaram que retiraram suas tropas da região de Manbij, uma das áreas contra as quais a Turquia prepara a ofensiva. Minutos depois, o Exército da Síria anunciou sua entrada na cidade. 

Mas a situação estava ainda incerta para os sírios que vivem na região, uma vez que milícia e governo descreveram de maneiras diferentes a situação. Apesar de Damasco afirmar que suas tropas haviam entrado totalmente em Manbij e hasteado uma bandeira síria, os curdos afirmaram que os soldados apenas ficariam no limite da cidade e a protegeria contra um ataque turco, sem entrar. 

O Observatório Sírio de Direitos Humanos informou hoje que dezenas de veículos com centenas de combatentes das forças leais a Assad chegaram aos arredores de Manbij. 

O porta-voz do Comando Central dos EUA, o tenente-coronel Earl Brown, afirmou que não havia indícios de que as tropas sírias tivessem realmente dentro de Manbij. 

'Ação psicológica'

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, anunciou no dia 12 que estava preparando uma ofensiva no norte da Síria contra as YPG. Ontem, ele diminuiu a importância do anúncio de Damasco e o qualificou de “ação psicológica” e “desenvolvimento pouco sério”.

“Esses territórios pertencem à Síria. Nosso objetivo é remover as organizações terroristas dali. Se as organizações terroristas forem embora, não teremos trabalho a fazer”, disse Erdogan.

A Turquia enviou tropas adicionais à fronteira com a Síria e para regiões do noroeste do país árabe, controladas por milícias pró-Turquia, especialmente nos arredores de Manbij.

Localizada na Província de Alepo, Manbij é controlada pelas YPG desde 2016, quando as milícias expulsaram o EI do local com ajuda dos EUA e da coalizão internacional liderada pelos americanos.

Oposição 

O Exército Livre Sírio (ELS), um dos grupos de oposição a Assad, por sua vez, anunciou que não lutará contra as tropas do governo em Manjib a não ser que haja uma cooperação total com a Turquia.

"Não podemos enfrentar ninguém sem o apoio turco. Por outro lado, a situação está se complicando, mas não a nosso favor, mas para as Forças da Síria Democrática e do regime (de Assad)", afirmou o general Khaled Haius, um dos comandantes do ELS./ NYT, AFP e EFE 

 

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