EFE/Liu Xia
EFE/Liu Xia

Após pedido dos EUA, China critica ‘comentários irresponsáveis’ sobre Nobel da Paz libertado

Governo americano insistiu para que Liu Xiaobo recebesse ‘liberdade de movimento’ e acesso ao atendimento médico que desejar

O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2017 | 10h27

PEQUIM - A China criticou nesta terça-feira, 27, o que qualificou de "comentários irresponsáveis" sobre o vencedor do prêmio Nobel da Paz em 2010, Liu Xiaobo, em liberdade condicional e vítima de um câncer terminal, após um apelo dos EUA para que ele receba "liberdade de movimento".

"Nenhum país tem o direito de interferir ou de fazer comentários irresponsáveis sobre os assuntos internos chineses", declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lu Kang, ao ser questionado sobre as declarações americanas. "A China é um país regido pelo Estado de Direito, onde todos são iguais perante a lei. Todo o país deveria respeitar a soberania judicial da China, e não utilizar casos individuais com fins de ingerência.”

A embaixada americana em Pequim se somou aos apelos cada vez mais numerosos de advogados e militantes chineses que exigem a plena libertação do opositor político. Figura emblemática do movimento democrático de Tiananmen, em 1989, o escritor de 61 anos foi condenado a 11 anos de reclusão em 2009.

Primeiro chinês a receber o Prêmio Nobel da Paz e símbolo da luta pela democracia na China, Liu Xiaobo foi solto em maio, após oito anos de prisão. Sua libertação aconteceu depois de ter sido diagnosticado com um câncer de fígado em fase terminal.

Na segunda-feira, a Administração Penitenciária de Liaoning confirmou sua soltura, indicando, em um breve comunicado, que Liu está sendo tratado "por uma equipe de oito renomados oncologistas" em um centro hospitalar universitário de Shenyang. Amigos do casal confirmaram que sua mulher, Liu Xia, foi autorizada a vê-lo.

Diante desse quadro, o governo americano pediu à China que conceda a Liu Xiaobo "liberdade de movimento" e acesso ao atendimento médico que ele desejar, depois que as autoridades confirmaram que o dissidente, diagnosticado com um câncer em fase terminal, foi transferido da prisão para um hospital.

"Rogamos às autoridades chinesas que libertem não apenas Liu, mas também sua mulher, Liu Xia, da prisão domiciliar que lhe foi imposta", disse a porta-voz da embaixada americana, Mary Beth Polley. Xia está em prisão domiciliar desde 2010, ano em que seu marido recebeu o prêmio Nobel da Paz. Ela vive praticamente sem qualquer contato com o exterior.

Segundo um de seus amigos próximos, Liu Xiaobo quer receber tratamento médico no exterior. "Ele deve ir para o exterior receber tratamento. É sua vontade", apontou a fonte, que quis se manter no anonimato.

Liberdade

Segundo a Fundação Dui Hua, uma ONG com sede nos EUA, uma pessoa que se beneficia de liberdade condicional por razões de saúde na China não é "livre ou libertada", mas "continua sendo vigiada pelos escritórios locais da segurança pública".

Passados seis meses, seu estado de saúde é avaliado. O resultado determinará se o condenado será posto em liberdade condicional ou se voltará para a prisão para cumprir o resto da pena, explicou a ONG.

Único Nobel da Paz detido no mundo, Liu Xiaobo se tornou um símbolo incômodo para o governo comunista, à medida que Washington, União Europeia e outros países passaram a reivindicar sua libertação.

O Comitê Nobel reagiu imediatamente à soltura de Liu. "O Comitê está feliz que Liu Xiaobo finalmente deixe sua prisão, mas lamenta, ao mesmo tempo, que tenha sido necessária uma doença grave para que as autoridades chinesas tenham aceitado libertá-lo. Liu Xiaobo travou uma luta incansável pela democracia e pelos direitos humanos na China e teve de pagar um preço alto por seu compromisso", declarou. / AFP e EFE

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