Após pedir boicote a britânicos, Argentina propõe voo direto às Malvinas

Presidente quer renegociar acordo com companhia aérea chilena, a única que voa até as ilhas.

Marcia Carmo, BBC

01 de março de 2012 | 21h32

Após de seu governo ter pedido a empresários que não importem produtos britânicos, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, anunciou nesta quinta-feira que negociará com a Grã-Bretanha para que a companhia aérea estatal Aerolíneas Argentinas realize três voos semanais de Buenos Aires para as Ilhas Malvinas (Falklands, para os ingleses).

Atualmente, as ilhas recebem voos apenas do Chile, operados uma vez por semana pela companhia aérea chilena LAN, partindo da capital, Santiago, com escala em Punta Arenas, no sul do país.

Uma vez ao mês, a LAN realiza a escala na cidade argentina de Rio Gallegos, na Patagônia.

"Orientei o ministro das Relações Exteriores (Héctor Timernan) e a embaixadora (argentina em Londres, Alicia Castro) a renegociar os acordos que assinamos em 1998 que permitem os voos semanais da LAN às ilhas", disse a presidente.

Cristina afirmou que também conversou com o presidente da Aerolíneas Argentinas, Mariano Recalde, para que os voos "partam do território continental, a partir de Buenos Aires, para as ilhas em nossa linha de bandeira".

A presidente recordou que, no ano passado, em um discurso na ONU, ela sugeriu que a Argentina poderia chegar a proibir os voos da LAN às Malvinas, gerando preocupação entre os ilhéus. Hoje a LAN sobrevoa a Argentina para chegar ao arquipélago.

A disputa pela soberania das Ilhas voltou a se intensificar neste ano que marca os trinta anos da guerra pelo arquipélago iniciada pela Argentina no dia dois de abril, mas com a vitória das tropas britânicas declarada naquele mesmo 1982.

'Boa vontade'

O anúncio foi interpretado por assessores do governo como um "gesto de boa vontade" aos habitantes das Malvinas, disseram à BBC Brasil auxiliares da administração.

"Não é que queremos seduzir os ilhéus, mas este é um gesto de boa vontade do interesses deles. O governo está demonstrando que não tem nada contra os ilhéus, que não quer prejudicá-los, mas sem deixar de insistir que os britânicos devem aceitar negociar a soberania das ilhas", afirmou um assessor de um dos principais parlamentares da base governista.

Assessores do governo explicaram ainda que a proposta da presidente é de revisão do acordo em vigor com a inclusão destas novas frequências aéreas às Malvinas.

A expectativa, disseram, é que a presidente também defenda a ideia na reunião que será realizada em junho nas Nações Unidas, à qual deverá comparecer acompanhada de parlamentares da situação e da oposição.

Na Argentina, diferentes pesquisas de opinião indicam que o entendimento de que as ilhas são argentinas é compartilhado por diversos setores políticos.

"As Malvinas viraram uma causa regional, americana e global", disse Cristina.

Ela afirmou ainda que não quer "prejudicar" nem ilhéus, nem britânicos e que tem a "sensação de humilhação" diante da decisão dos britânicos de "não negociarem" a soberania das ilhas.

Ela também voltou a afirmar que os britânicos estão "militarizando" as ilhas. "Há ali 2.950 habitantes, mas há mais de um soldado para cada três pessoas", disse.

Também voltou a falar a palavra "colonialismo" ao se referir aos ingleses.

'Contraditório'

O anúncio da presidente em relação às Aerolíneas Argentinas recebeu a aprovação de parlamentares da oposição.

No entanto, eles afirmaram que o país "precisa ter uma conduta coerente" no que diz respeito às Malvinas/Falklands, já que nos dois últimos dias dois cruzeiros que tinham saído das ilhas foram impedidos de ancorar na Terra do Fogo, na Patagônia argentina.

O Ministério da Indústria pediu às empresas que importam produtos britânicos que substituam as mercadorias por outras de outros países.

A iniciativa na área comercial levou a Grã Bretanha a apelar à União Europeia, segundo a imprensa local.

"É muito boa essa busca de maior contato com a ilha", disse o deputado Ricardo Gil Laavedra, da União Cívica Radical (UCR).

Outro parlamentar do mesmo partido, o senador Luis Naidenoff, observou: "É uma decisão inteligente, a de se ter mais voos, mas não é inteligente proibir importação da Grã Bretanha".

Por sua vez, a deputada opositora Patrícia Bulrich disse que é "contraditório" impedir os cruzeiros e defender mais voos. "É preciso mais coerência", afirmou.

Em seu site, o jornal bito Financiero destacou que a presidente deu uma "guinada" na política em relação às Ilhas. Mas o deputado governista Agustín Rossi, da Frente para a Vitória (FPV), afirmou que nada mudou. "Continuamos querendo negociar a soberania e a presidente vai pessoalmente à ONU para isso", disse. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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