Após perda de líderes, Farc estão mais pobres

Grupo guerrilheiro vive fase difícil e já não tem mais os recursos que tinha dez anos atrás, diz cientista político

ROBERTO GODOY, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2012 | 02h01

O acampamento bem montado, os utilitários novos e, principalmente, os planos - como os da incorporação de ao menos dois helicópteros - ficaram em 2002: as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) de 2012, estão mais pobres, vivem uma fase difícil, de poucos recursos. "O vácuo de comando provocado pela perda dos principais líderes e o crescimento da repressão militar contribuem para a fase", diz o cientista social brasileiro Paulo Q. M., que esteve há três semanas em uma unidade dos guerrilheiros, talvez a mesma base que visitou, também por um dia inteiro, há dez anos.

"A única coisa em comum que encontrei foi o grupo de militantes jovens, cheios de entusiasmo e com a percepção de que a negociação de paz prova que eles podem vencer a luta armada", conta. A crise de identidade, acredita Paulo, começou em março de 2008 - na madrugada do primeiro dia do mês, um ataque de alta precisão, empregando os turboélices Super Tucano, da Embraer, matou o porta-voz e principal negociador político do movimento, Raul Reyes, refugiado em um abrigo na selva, em território do Equador, na fronteira entre os dois países. O fundador das Farc, Manuel Marulanda Velez, doente de câncer, sofreu um infarte cerca de um mês mais tarde e morreu enquanto era socorrido. Seu sucessor, escolhido pelo Estado-Mai0r Central das Farc-Exército do Povo, o Mono Jojoy, foi abatido em batalha em setembro de 2010. Assumiu Alfonso Cano - que foi morto pelas forças especiais colombianas há um ano.

Para chegar ao acampamento, nas proximidades de Macarena, no Departamento de Meta, o pesquisador gastou um dia e meio a bordo de uma velha picape brasileira e mais dez horas, caminhando por trilhas na mata. Na concentração, tudo diferente dos cenários de 2002. "Instalações precárias, uniformes gastos, botas velhas, mas as armas estavam impecáveis, limpas e o tempo todo à vista", conta.

A comida, farta e variada há dez anos, perdeu: "O almoço do nosso dia, portanto um cardápio para receber visitas, foi um prato já pronto de arroz, salada de banana e peixe ao molho", relata.

Ainda uma força. "O jaguar ferido ainda é um jaguar", disse ao cientista social Paulo um comandante da companhia, Joaquín, responsável pelas sessões dos estudos políticos, todas as manhãs.

Em combate, ele comanda 12 guerrilheiros. "O que Joaquín quer dizer é que os rebeldes continuam mantendo presença em 24 dos 32 departamentos da Colômbia, com 10 mil militantes". O número é contestado pelo governo do presidente Manuel Santos, que estima o contingente rebelde em 7 mil. Os vínculos com o narcotráfico sofreram abalos, garante o Ministério da Defesa, e o tamanho da economia da narcoguerrilha caiu - de US$ 500 milhões para metade desse valor.

O quadro deve ser determinante na terceira rodada das discussões de paz, marcadas para Havana, em Cuba, entre os dias 4 e 20. "É a melhor chance de encerrar o conflito que já dura 48 anos", analisa Paulo Q.M., para quem "se a guerrilha se transformar em partido político, chegará ao poder, pelo voto, até 2020".

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