Após pleito, Chávez terá que rever projeto, dizem analistas

Governo não deve conseguir cadeiras suficientes para aprovar medidas mais polêmicas.

Claudia Jardim, BBC

27 de setembro de 2010 | 20h03

A base governista deve perder a maioria absoluta do Parlamento

O governo do presidente Hugo Chávez terá de corrigir falhas e rever o ritmo e as prioridades de seu governo depois das eleições legislativas do domingo, na opinião de analistas ouvidos pela BBC Brasil.

Segundo dados preliminares, a base governista obteve 95 cadeiras das 165 em disputa e a oposição 61, o que dá maioria parlamentar ao governo mas não os dois terços que permitiria a radicalização das reformas legislativas para consolidar o projeto da "revolução bolivariana".

"A mensagem é clara: se a perspectiva são as eleições em 2012, ainda há muito o que fazer e o governo terá que resolver os problemas sociais internos relacionados com a inflação, insegurança, desemprego" afirmou o analista político venezuelano Miguel Tinker Salas, professor de História Latinoamericana da Pomona College, da Califórnia.

Para o analista político Javier Biardeau, professor da Universidade Central da Venezuela, os resultados expressam que há um "mal-estar" entre a base de apoio chavista e a Cúpula do governo.

"É um mal-estar relacionado com a direção do processo político. A alta cúpula do processo está cometendo erros e as bases e os militantes do partido estão cobrando", afirmou. "Não é uma cobrança pró-oposição e sim um duro chamado de atenção ao chavismo, para ver se efetivamente corrige o rumo ou não", acrescentou.

Derrota?

Em uma primeira reação, o governo interpretou o resultado das urnas como uma "sólida vitória" que permitirá "aprofundar o socialismo", escreveu Chávez em seu perfil no twitter.

Antes do pleito, no entanto, o presidente venezuelano estabeleceu como meta mínima conquistar os dois terços do Parlamento, equivalente a 110 lugares, para poder colocar o pé no acelerador das reformas sociais e econômicas no país.

Tendo em conta este panorana, Biardeau considera os resultados como uma "derrota" para o governo.

"É uma derrota política que aponta mudanças no perfil político com que se vinha governando", afirmou Biardeau à BBC Brasil.

Chávez terá pressa para aprovar suas propostas mais polêmicas

O analista diz acreditar que o governo terá de modificar o estilo e os rumos que dará ao governo a partir de agora, caso queira evitar uma crise institucional e de estagnação no âmbito político.

"É um dos piores cenários para o governo. Voltamos a uma conjuntura semelhante à de 2002", quando a Venezuela viveu o auge da crise política que derivou no golpe de Estado de abril daquele ano, afirmou Biardeau à BBC Brasil.

Em 2002, porém, a oposição controlava 81 vagas no Parlamento, 20 cadeiras mais do que as conquistadas no domingo.

Contra o tempo

Antes de que o novo Parlamento assuma, em janeiro do próximo ano, os parlamentares governistas que atualmente detêm a maioria absoluta da Assembleia Nacional terão pelo menos três meses para acelerar a aprovação de reformas relacionados à estrutura política e econômica do país, que no futuro tendem a ser barradas pela oposição parlamentar.

Analistas consideram que uma revisão da política econômica e medidas para conter a alta inflacionária, que pode chegar a 30% neste ano, são fundamentais para corrigir parte dos erros que têm desgastado a administração chavista, no poder há 11 anos.

No âmbito do novo modelo produtivo da economia "socialista" defendida por Chávez, a base governista já tem engatilhada uma proposta de lei de "propriedade social", que estabelece uma espécie de propriedade coletiva. Essa lei é duramente criticada pelo anti-chavismo por considerar que atenta contra a propriedade privada.

Outro conjunto de leis que delega poder político e econômico às Comunas - estruturas organizativas comunitárias - já foi aprovado em primeira discussão no Parlamento e está sendo submetido à consulta pública, podendo ser aprovado nos próximos dois meses, conforme prevê o trâmite legislativo.

Se no final da contagem dos votos o governo contabilizar pelo menos 99 vagas, equivalente a três quintos do Parlamento a base governista aprovar uma lei que concede poderes ao presidente para governar por decreto durante meses.

Os especialistas consideram, no entanto, que esta medida pode ter um custo político interno muito alto. "É uma possibilidade, mas não acredito que o governo busque esse caminho", afirmou à BBC Brasil o analista político Edgardo Lander.

"Seria desrespeitar a decisão do voto popular nas urnas", acrescentou.

Unidade

As eleições deste domingo também eram interpretadas como um termômetro que mediria a popularidade do presidente , que nos últimos anos descendeu de 70% para oscilar entre uma margem entre 40% e 50% de aprovação.

A oposição, que esteve fora do Parlamento nos últimos cinco anos, tem interpretado os resultados como um grande triunfo contra o governo e um caminho para fazer frente ao projeto chavista, até agora imbatível, nas eleições presidenciais de 2012.

Manter a coalizão que permitiu a volta da oposição ao Parlamento será o principal desafio dos opositores a partir de agora, segundo o analista político venezuelano Miguel Tinker Salas.

" A unidade da oposição foi temporal. Veremos se são capazes de manter esta unidade em torno a uma candidatura única presidencial", afirmou.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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