Ludovic Marin/AFP
Ludovic Marin/AFP

Após polêmica por submarinos, Biden tenta reparar laços com europeus no G-20

Aliados europeus de Washington já estavam irritados com a forma como lidou com a retirada do Afeganistão, que eles disseram que Biden ordenou sem consultá-lo

The New York Times, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2021 | 18h36

ROMA - Depois de uma discussão diplomática de seis semanas que envolveu um acordo sobre submarinos nucleares e um embaixador chamado de volta, o presidente americano, Joe Biden, iniciou um esforço individual para aparar as arestas com o presidente da França, Emmanuel Macron

"O que fizemos foi desajeitado. Não foi feito com muita graça", disse Biden a repórteres, sentando-se ao lado de Macron pouco antes de iniciarem uma reunião privada. Ele acrescentou: "Eu tinha a impressão muito antes de que a França tivesse sido informada".

A França tinha um acordo para construir submarinos com propulsão convencional para a Marinha australiana, mas no mês passado os EUA e o Reino Unido anunciaram seu próprio acordo com a Austrália para a fabricação de submarinos com propulsão nuclear. A Austrália cancelou o acordo com a França, cujos funcionários não foram informados de que um pacto com os americanos e britânicos estava em andamento, enfurecendo Macron e outros em seu governo.

Os aliados europeus de Washington já estavam irritados com a forma como lidou com a retirada do Afeganistão, que eles disseram que Biden ordenou sem consultá-los. O tratamento dado ao negócio do submarino francês, disseram eles, foi mais uma prova do desprezo americano.

Desde que o acordo foi anunciado, os dois países trabalharam para superar a disputa, e o governo Biden enviou funcionários a Paris, incluindo o secretário de Estado, Antony Blinken, para tentar acalmar as coisas. Insatisfeita com as sutilezas, a França exigiu resultados “concretos”. “Agora, o que é importante é ter certeza de que tal situação não se repetirá no futuro”, disse Macron em suas próprias declarações. “Este é um esclarecimento extremamente importante.”

Autoridades americanas e francesas disseram que os EUA estão preparados para apoiar os esforços de contraterrorismo da França na África, incluindo a possibilidade de enviar aviões de reconhecimento e drones adicionais para o campo de aviação de US$ 110 milhões que os Estados Unidos construíram no deserto perto de Agadez, Níger.

O governo Biden também tentará atender a uma das prioridades de Macron, dando um apoio cauteloso a uma força militar europeia separada da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), disseram as autoridades. Isso também seria visto em Paris como um sinal de respeito americano após o insulto percebido do acordo de submarino australiano negociado secretamente.

Biden está na Europa para a reunião do Grupo dos 20, em Roma, e para a conferência climática global, em Glasgow. O americano, que sempre se refere a suas habilidades como negociador e décadas de experiência em política externa, aproveitará a oportunidade para tentar consertar o desentendimento com a França e conter as críticas sobre a retirada caótica do Afeganistão. 

Boa vontade 

O democrata buscará compromissos de líderes estrangeiros para combater a pandemia, desemaranhar os nós da cadeia de suprimentos e desacelerar o aumento da inflação em todo o mundo. “Ainda acho que o presidente desfruta de uma tremenda boa vontade fundamental na Europa”, disse Ian Lesser, presidente interino do German Marshall Fund dos EUA.

Embora uma pesquisa recente da Gallup mostre que a posição dos americanos em todo o mundo se recuperou dos pontos baixos da era Trump, "só porque Biden não é Trump não torna todas as questões políticas fáceis de resolver", disse Lesser.

No acordo que foi rompido com Paris, os franceses perderam um projeto de US$ 66 bilhões para construir submarinos de ataque. A negociação enfureceu tanto os franceses que Macron chamou de volta o embaixador de seu país nos EUA, Philippe Étienne, por vários dias. A vice-presidente americana, Kamala Harris, deve ir a Paris em novembro para abordar o tema.

Célia Belin, pesquisadora visitante do Centro dos EUA e da Europa do Brookings Institution, disse em uma entrevista que o governo Biden parecia esquecer “a arte do bom gosto da diplomacia”. 

Desde o anúncio do pacto, Macron tem falado abertamente sobre a necessidade de as nações europeias praticarem a chamada autonomia estratégica, uma política que gradualmente significaria que países como a França dependeriam menos dos EUA para assistência militar. À medida que a cúpula estiver em andamento, os europeus estarão observando com interesse se Biden apóia tal iniciativa, disse Belin.

Espera-se que Biden também trate de pelo menos mais uma relação diplomática difícil enquanto estiver no exterior. Nos últimos dias, o presidente Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, ameaçou retirar seu embaixador nos EUA depois que várias embaixadas, incluindo a americana, pediram a libertação de um ativista preso. Biden deve se encontrar com Erdogan na Escócia. 

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