KIM Won Jin / AFP
KIM Won Jin / AFP

Após primeiro caso, Coreia do Norte tenta culpar Seul por pandemia

A Coreia do Norte usa o retorno de um desertor norte-coreano para culpar Seul pela presença do coronavírus em seu território, afirmaram analistas nesta segunda-feira, 27

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2020 | 12h00

PYONGYANG - O regime norte-coreano impôs um confinamento à cidade de Kaesong, perto da fronteira com a Coreia do Sul, depois de anunciar que havia identificado um caso "suspeito" de covid-19 em um desertor que retornou recentemente ao Norte atravessando a Zona Desmilitarizada (DMZ), informou a mídia norte-coreana no fim de semana. Agora, o objetivo da Coreia do Norte é culpar Seul pelo caso em seu território. 

Por meses, o Norte sustentou que o coronavírus não havia se propagado em seu solo, embora a pandemia tenha surgido na vizinha China, seu principal apoio diplomático e econômico. A afirmação é questionada por especialistas, que acreditam que o coronavírus já já estava presente na Coreia do Norte. 

Nesta segunda-feira, 27, autoridades sul-coreanas disseram que a pessoa suspeita de ser o desertor nunca foi diagnosticada com o coronavírus nem identificada como tendo tido contato com casos confirmados. O país tem sido elogiado por sua resposta eficaz à epidemia, com uma estratégia de rastreamento muito agressiva. Mais de 1,5 milhão de testes foram realizados.

"A Coreia do Norte poderia tentar usar o retorno desse desertor para evitar a responsabilidade por uma epidemia que já existia", disse Rachel Lee, especialista em Coreia do Norte e ex-funcionária do governo dos EUA. "Pode atacar a vigilância nas fronteiras sul-coreanas e até acusar a Coreia do Sul de enviar deliberadamente o desertor para espalhar o vírus por lá".

Duyeon Kim, especialista em questões coreanas no International Crisis Group, acrescenta que ao culpar Seul, Pyongyang "agora pode legitimamente e abertamente aceitar ajuda do Sul".  "Também pode enviar uma mensagem sobre os desertores apresentando-os ainda mais como inimigos do Estado", afirmou no Twitter.

O regime de Kim Jong-un tem o hábito de difamar as pessoas que fugiram para a Coreia do Sul, o que tensiona ainda mais as relações entre os dois países. 

11 retornos em cinco anos

É extremamente raro que norte-coreanos que fugiram para o Sul retornem ao seu país de origem, onde correm o risco de represálias, segundo organizações de direitos humanos. O ministério da Unificação da Coreia do Sul diz ter apenas 11 exemplos de norte-coreanos que voltaram nos últimos cinco anos.

E é ainda mais raro que o façam através da Zona Desmilitarizada, que, ao contrário do que o nome sugere, é uma das áreas mais militarizadas do mundo, com campos minados, postos de guarda e arame farpado. As Forças Armadas sul-coreanas disseram acreditar que um desertor cruzou de volta para o Norte, atravessando o estuário do rio Han, a partir da ilha de Ganghwa. 

Ele não foi identificado oficialmente, mas alguns meios de comunicação acreditam que é um homem de 24 anos que chegou à Coreia do Sul em 2017. As autoridades alegam que o homem está sob investigação por estupro. 

No mês passado, este homem apareceu em um canal no YouTube de outro desertor. Ele contou que levou sete horas para atravessar a fronteira a nado quando atravessou para o Sul. Na entrevista, disse que "chorou por 10 dias" pensando em sua família no Norte.

Duas pessoas que entraram recentemente em contato com ele foram submetidas a testes no domingo, mas nenhuma era portadora do coronavírus, disse Yoon Tae-ho, uma autoridade sul-coreana. O sistema de saúde da Coreia do Norte é precário e não tem condições de lidar com uma pandemia. Pyongyang foi, no final de janeiro, o primeiro país do mundo a fechar suas fronteiras para se proteger do novo coronavírus. / AFP

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