EFE/EPA/STR
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Após prisão de líder partidário, oposição convoca protestos na Geórgia

Ex-república soviética vive crise política desde as eleições parlamentares do ano passado, quando o partido de situação, Sonho Georgiano, reivindicou uma vitória apertada; oposicionistas falam em fraude

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2021 | 09h08
Atualizado 23 de fevereiro de 2021 | 11h41

TBLISI - Partidos de oposição convocaram protestos nesta terça-feira, 23, na Geórgia, após a prisão de um de seus principais líderes. Nika Melia foi detido na sede de seu partido, durante uma operação policial que acabou com dezenas de apoiadores detidos.

Meliá é líder do principal partido de oposição do país, o Movimento Nacional Unido (MNU). Ele foi retirado da sede de sua legenda e está em detenção preventiva, de acordo com imagens do canal de televisão Mtavari. Centenas de policiais usaram gás lacrimogêneo contra simpatizantes e dirigentes de todos os partidos da oposição que estavam acampados diante do edifício desde a semana passada, com dezenas de opositores sendo detidos.

A operação policial foi mais um elemento da crise política em que a ex-república soviética está mergulhada desde outubro, agravada na semana passada quando o então primeiro-ministro, Giorgi Gakharia, renunciou ao cargo. Na quinta-feira, Gakharia afirmou que deixava a função por não concordar com a aplicação de uma decisão judicial para deter a Melia.

A operação policial provocou a revolta da oposição e uma advertência dos aliados ocidentais. Mamuka Khazaradze, líder do partido de oposição Lelo, convocou um "combate pacífico e incansável para defender a democracia georgiana".

"A libertação dos presos políticos e eleições antecipadas representam a única saída possível para a crise", declarou à imprensa. Em nome dos partidos de oposição, ele convocou protestos diante da sede do governo.

A agitação na Geórgia é a mais recente de várias ao longo das vastas fronteiras da Rússia: os protestos continuam em Belarus por causa de uma eleição presidencial de agosto que a oposição denunciou como fraudulenta, e o Quirguistão teve recentemente sua terceira revolução nos últimos 15 anos.

A Geórgia, um país de cerca de 3,7 milhões de habitantes às margens do Mar Negro, foi considerado mais democrático do que os outros dois, com ambições de ingressar na Otan. Mas a escalada de terça-feira pode, em última análise, trabalhar em benefício de Moscou, potencialmente afastando Tbilisi de seus poderosos aliados ocidentais. Nos últimos anos, legisladores dos EUA expressaram preocupação em cartas à liderança da Geórgia de que algumas ações do partido do governano, Sonho Georgiano, indicaram um "retrocesso".

"Chocado com as cenas na sede do MNU esta manhã", escreveu o embaixador britânico Mark Clayton no Twitter. E completou: "A violência e o caos em Tbilisi são as últimas coisas de que a Geórgia precisa neste momento. Apelo às partes para que atuem com moderação, agora e nos próximos dias."

A embaixada dos Estados Unidos afirmou em um comunicado que está "profundamente preocupada" com a detenção de Nika Melia. "A força e a agressividade não são a solução para resolver as diferenças políticas na Geórgia", completa a nota.

Em um comunicado, o Ministério georgiano do Interior afirmou que a polícia empregou "força proporcional", assim como "recursos especiais" na operação.

Sistema democrático quebrado

A ordem de detenção de Melia aprofundou a tensão política começou em outubro, quando a coalizão liderada pelo partido governista novamente alcançou a vitória, mas grupos de oposição afirmam que a votação foi fraudada e se recusaram a tomar seus assentos no Parlamento. Os críticos acusaram o Sonho Georgiano de consolidar o controle quase total sobre todos os ramos e níveis de governo.

O partido Movimento Nacional Unido, fundado por Mikheil Saakashvili, ex-presidente da Geórgia que agora vive exilado na Ucrânia, obteve apenas 27% dos votos. Melia foi nomeado o novo líder do partido no final de dezembro. Após a renúncia de Gakharia, na semana passada, os partidos opositores pediram a convocação de eleições antecipadas.

Prisão de Melia

Nika Melia é acusado de organizar manifestações violentas contra o governo em 2019 e pode ser condenado a nove anos de prisão. Ele rejeita as acusações, que considera políticas.

Na segunda-feira, o Parlamento confirmou a nomeação do ministro da Defesa, Irakli Garibashvili, como novo primeiro-ministro. Em um discurso para os deputados, Garibashvili anunciou que o governo prenderia Melia, dizendo que o opositor "não conseguirá escapar da Justiça".

O novo primeiro-ministro é considerado um político leal ao oligarca Bidzina Ivanishvili, fundador do partido Sonho Georgiano, homem mais rico do país e considerado por muitos como a pessoa que realmente controla o poder, apesar de oficialmente não ter um cargo político - o bilionário anunciou sua saída da política georgiana no mês passado.

Para o analista Matthew Bryza, do "think tank" americano Atlantic Council, a Geórgia chegou a um ponto em que "os partidos de oposição afirmam que não podem mais atuar no Parlamento porque o sistema democrático está quebrado". "Sem uma mediação maior do Ocidente, a situação pode se tornar muito perigosa", opina o ex-diplomata.

No poder desde 2012, o partido Sonho Georgiano perdeu popularidade em um cenário de estagnação econômica e de ataques aos princípios democráticos./ AFP

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