EFE/ESTEBAN BIBA
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Após protestos e greve geral na Guatemala, cresce a pressão pela renúncia do presidente

Milhares de pessoas marcharam nas ruas do país pedindo que Otto Pérez Molina deixe o poder; Celac pede que 'ordem constitucional' e 'estado de direito' sejam respeitados

O Estado de S. Paulo

28 de agosto de 2015 | 12h38

CIDADE DA GUATEMALA - Apesar dos grandes protestos que fecharam o centro da capital da Guatemala e do apoio do setor privado a uma paralisação nacional realizada na quinta-feira, o presidente do país, Otto Pérez Molina, afirmou que não renunciará e se manterá no cargo até as eleições marcadas para o dia 6, na qual serão escolhidos os novos presidente e vice-presidente do país, além dos 158 deputados nacionais e de 30 representantes para o Parlamento centro-americano.

"Não podemos quebrar as leis do país. As eleições têm que acontecer", afirmou Pérez Molina à emissora local Radio Sonora. "Estou aqui e não daria as costas ao povo da Guatemala, não vou me esconder. Não tenho nada a esconder."

Pela primeira vez, porém, desde que começaram os protestos que pedem sua saída e que desencadearam a mais grave crise política na história recente da Guatemala, o presidente admitiu a possibilidade de deixar o poder. "A renúncia é uma demanda que (os manifestantes) podem fazer, mas é uma decisão que só eu posso tomar", afirmou Pérez Molina.

Nesta sexta-feira, o vice-presidente da Guatemala, Alejandro Maldonado, disse que não pedirá ao presidente que renuncie por "ética política" e porque isso trata-se de uma decisão "que é pessoal".

"Não quero entrar para a histórica com o título de traidor ou covarde", disse Maldonado, que foi juiz e presidente da Corte de Constitucionalidade no governo de Marco Vinicio Cerezo (1986-1991).

Também nesta sexta, a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac) defendeu a importância de manter um "diálogo respeitoso" com respeito à ordem constitucional e ao estado de direito para enfrentar a crise que vive o país.

"A Celac salienta a importância de que todos os atores políticos, econômicos e sociais na Guatemala façam frente a atual crise com base no diálogo respeitoso, com pleno respeito à ordem constitucional vigente e ao estado de direito", disse a organização, em comunicado. A presidência temporária da Celac é exercida pelo Equador.

Processo. Além da escalada dos protestes e pedidos de diferentes setores da sociedade para que o presidente renuncie - da Igreja e do empresariado aos camponeses, de universitários a outros estudantes -, também aumenta no país a possibilidade de que Pérez Molina acabe no banco dos réus pela acusação de liderar uma rede de corrupção. 

Na quinta-feira, foi formada no Congresso uma comissão que analisará a possibilidade de o político perder a imunidade para que seja investigada sua suposta ligação a uma milionária fraude fiscal relacionada com o sistema de aduanas. Esse esquema resultou na prisão, quarta-feira, da ex-presidente da Guatemala, Roxanna Baldetti, que renunciou ao cargo em 8 de maio.

Segundo a Procuradoria Geral da Guatemala e a Comissão Internacional Contra a Impunidade na Guatemala, Pérez Molina está ligado a uma rede formada por funcionários e outros indivíduos que dirigiam comissões de câmbio para conseguir desviar impostos. A procuradoria disse que cerca de 100 pessoas são investigadas no caso, das quais pelo menos metade já está presa.

Nas ruas. A marcha e a greve nacional de quinta-feira mostraram uma mobilização nunca antes vista no país, com estudantes de universidades públicas e privadas, mulheres e indígenas juntos das classes média e alta, pedindo a mesma coisa: a saída de Pérez Molina.

"Fazemos um chamado a Otto Pérez Molina para que não se apegue ao cargo e escute o clamor de todo um país que rechaça de forma categórica os atos de corrupção cometidos por seu governo", afirmou em comunicado público o Comitê Coordenador de Associações Agrícolas, Comerciais, Industriais e Financeiras do país, maior órgão do setor empresarial da Guatemala.

"Consideramos que o senhor presidente deveria refletir em sua consciência a decisão de renunciar ou não", disse a Conferência Episcopal. "Tememos que sua postura atual cause mais polarização no país e gere conflitos maiores. Infelizmente é evidente e lamentável que grandes setores da população não têm confiança no presidente."

A estudante de medicina Fernanda Monterroso, de 19 anos, que participou da marcha de quinta-feira, disse que o protesto era contra "o roubo da infraestrutura e dos insumos hospitalares" que acontecem no país. "Os políticos não tem vergonha e os pacientes morrem."

O reitor da Universidade Jesuita, Rafael Landívar, também defendeu a renúncia do presidente, dizendo que  "a evidência de corrupção é tão inevitável que não resta outra opção a não ser o que está ocorrendo no país". "A lógica da a corrupção e os dados que foram conhecidos, somados ao cinismo político de alguns, é insustentável para a população." / AP e EFE

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