Mohamed Nureldin/REUTERS
Mohamed Nureldin/REUTERS

Após repressão sangrenta, manifestantes desafiam militares com barricadas no Sudão

Cartum amanhece em clima de tensão, com bancos e mercados fechados; ao menos três pessoas morreram no sábado, 30

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2021 | 14h29

CARTUM - Sudaneses voltaram a protestar neste domingo, 31, contra o golpe de Estado no país erguendo barricadas nas ruas de Cartum, um dia depois de uma sangrenta repressão contra as manifestações civis. 

A capital amanheceu em clima de tensão, com bancos e mercados fechados e moradores relatando medo de ataques. Apenas algumas lojas pequenas e barracas funcionavam. O trânsito entre a capital e sua cidade gêmea, Cartum do Norte, foi interrompido após as forças de segurança fecharem as pontes do rio Nilo.

Muitos funcionários do governo se recusam a trabalhar em protesto contra o golpe militar. Soldados do exército e as temidas Forças de Apoio Rápido paramilitares foram vistos em muitas ruas de ambas as cidades.

No sábado, forças militares reprimiram protestos que reuniram dezenas de milhares de pessoas em todo o país. Ao menos três pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas durante as manifestações, de acordo com o Comitê Central de Médicos do Sudão, independente, que relatou que os mortos tinham ferimentos a bala na cabeça, peito ou estômago.

Um oficial sênior da ONU discutiu opções de mediação e os possíveis próximos passos para o Sudão com o premiê despoto, Abdalla Hamdok, neste domingo, 31. "Vou continuar esses esforços com outras partes interessadas sudanesas", escreveu Volker Perthes, representante especial da organização para o país, no Twitter. Perthes acrescentou que Hamdok estava "em sua residência, onde permanece bem, mas em prisão domiciliar".

Hamdok exige a libertação de presos políticos e um retorno ao acordo de divisão de poder anterior ao golpe, disseram fontes próximas a ele. Uma das várias fontes de tensão foi uma pressão dos civis para assumir a liderança da transição dos militares em um ponto ainda não acordado nos próximos meses.

O Sudão era governado desde agosto de 2019 por um conselho civil-militar, sob as ordens do primeiro-ministro Abdalla Hamdok, com objetivo de garantir uma transição democrática. Na última segunda-feira, 25, o general Abdel Fattah al-Burhan derrubou o gabinete de Hamdok, prendendo opositores. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, chamou o golpe de "sério revés", enquanto a União Africana suspendeu o país por "tomada inconstitucional do poder".

O Banco Mundial e os Estados Unidos congelaram a ajuda financeira ao Sudão, medida que afetará duramente um país já mergulhado em uma grave crise econômica. 

Mas Burhan, que se tornou líder de fato depois que o ex-presidente Omar al-Bashir foi deposto em 2019, após enormes protestos liderados por jovens, insiste que a tomada militar "não foi um golpe". Em vez disso, ele diz que quer "retificar o curso da transição sudanesa". /AFP

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