Dieu Nalio Chery/AP
Dieu Nalio Chery/AP

Após retorno, Baby Doc é indiciado por corrupção e desvio de fundos

Em meio à revolta de simpatizantes e aos gritos de ''prendam Préval'', Jean-Claude Duvalier é levado pela polícia do hotel em que está hospedado em Porto Príncipe, mas é libertado depois de prestar declarações por mais de quatro horas

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2011 | 00h00

O ex-ditador haitiano Jean-Claude Duvalier foi temporariamente detido ontem e indiciado por corrupção e desvio de fundos durante seu governo (1971-86). Depois de prestar declarações por mais de quatro horas à Promotoria, Baby Doc foi libertado e voltou para o luxuoso hotel de Porto Príncipe onde ele está hospedado desde domingo, quando encerrou 25 anos de exílio. Seus advogados disseram que ele deve ficar à disposição da Justiça.

Sob gritos de "prendam (o presidente René) Préval" e em meio a um grande tumulto, Duvalier - trajando uma camisa preta, gravata e sem algemas - foi levado de seu hotel para um prédio da Justiça haitiana no centro da capital.

Simpatizantes do homem que aterrorizou o Haiti por 14 anos tentavam fechar com pedras as ruas por onde passava o comboio de viaturas que o levava. Os manifestantes subiam em casas destruídas pelo terremoto procurando qualquer coisa que pudesse parar o tráfego, incluindo uma caçamba de lixo que foi colocada de lado sobre o asfalto.

Alguns haitianos corriam atrás dos carros carregando fotos de Baby Doc ao lado de imagens de Jean-Bertrand Aristide, presidente que em 2004 também se viu obrigado a entregar o poder e fugir do Haiti.

Henry Robert Sterlin, seu ex-embaixador em Paris e Madri, que se transformou em uma espécie de porta-voz de Baby Doc, provocara pouco antes: "Quero ver levarem Jean-Claude à prisão".

Antes de ser levado pela polícia, Baby Doc, de 59 anos, recebeu em seu quarto no hotel autoridades do Judiciário haitiano, com as quais ficou reunido por mais de uma hora.

Ainda segundo parentes e ex-funcionários de Duvalier, ele permaneceu "tranquilo" e tomava café ao chegar ao prédio da Justiça. Centenas de jornalistas e milhares de haitianos cercavam o local, sob o olhar de policiais e soldados das tropas de paz da ONU, mas não houve nenhum registro de violência.

"Essa prisão é inaceitável", protestava do lado de fora do hotel de Duvalier Maximo Dufort, de 39 anos. "Há as mesmas acusações de corrupção contra Préval, o maior ladrão deste país, e ninguém o prende." Dufort, que nega ser "duvalierista", tentou fechar a rua que dava acesso ao hotel de Baby Doc, mas acabou dissuadido depois que um policial haitiano bateu de punho fechado no capô de seu carro.

Jean Robert Ambroise, desempregado de 63 anos, também ameaçava fechar o tráfego nos fundos do hotel, por onde saiu Baby Doc. "Não temos trabalho, não temos nada. Quando Duvalier era presidente, esse país andava", disse.

Duvalier assumiu o poder aos 19 anos, após a morte de seu pai, François, também conhecido como "Papa Doc". O reinado dos dois é considerado um dos momentos mais nefastos da história haitiana, quando milicianos ligados ao poder, os Tonton Macoutes, aterrorizavam a população civil. Estima-se que 30 mil morreram nos porões da era da dinastia Duvalier.

Ontem, a Anistia Internacional voltou a criticar as autoridades haitianas após ser divulgada a informação de que a Justiça do país apenas acusaria Baby Doc de corrupção. A ONG exige que ele também responda pelas acusações de tortura, detenções arbitrárias, desaparecimentos e execuções extrajudiciais.

ACUSAÇÕES

Corrupção

Autoridades haitianas estimam que mais de US$ 100 milhões tenham sido desviados por Baby Doc para contas na Suíça. A maior parte do dinheiro permanece Bloqueada

Direitos humanos

Como o pai, Baby Doc contava com os serviços da milícia conhecida como Tontons Macoutes, que controlava o país usando violência e intimidação. Milhares de haitianos foram torturados e mortos

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