Após Saddam não haveria Iraque

Enquanto os debates sobre um possível ataque ao Iraque continuam entre os diplomatas de vários países, o governo dos Estados Unidos e aliados no mundo árabe já começam a traçar os planos para o Oriente Médio após a queda de Saddam Hussein. Uma das idéias que vem sendo debatida é a de não apenas promover uma mudança de regime no Iraque, mas eliminar o país do mapa.O projeto que circula nos meios diplomáticos envolveria a anexação do Iraque pela Jordânia, em um reino incondicionalmente aliado aos Estados Unidos. O ministro das Relações Exteriores da Jordânia, Marwan Al-Moashar, garantiu hoje que Amã não está pensando nessa possibilidade. Mas nos corredores da ONU, todos sabem que o plano ainda não seria oficialmente divulgado para não dividir ainda mais os supostos aliados de Washington em uma guerra contra Bagdá.O fato é que o príncipe Hassan da Jordânia se reuniu, nos últimos dois meses, com membros da oposição iraquiana. Para Al-Moashar, o príncipe não representa o reino da Jordânia. O que ele não conseguiu explicar é porque as reuniões de Hassan, que ocorreram em Londres, foram organizadas por Washington. Para justificar a anexação, o plano se utilizaria do fato de que o atual rei da Jordânia, Abdullah II, é primo de segundo grau do ex-rei do Iraque, Faisal II, que foi deposto em 1958.O plano resolveria uma das questões cruciais para os Estados Unidos: quem ficará no poder em Bagdá após a queda de Saddam Hussein. O temor de Washington e dos países da região é de que os vários grupos étnicos comecem uma batalha sangrenta pelo poder e pelas reservas de petróleo que acabaria desestabilizando de vez a região.SegurançaA criação de um novo país ainda justificaria a presença de tropas norte-americanas na região, supostamente para garantir a segurança do novo Estado. Além disso, para evitar que o norte do Iraque acabe se tornando o Estado independente do Curdistão, o que geraria a oposição da Turquia ao plano, o Exército dos Estados Unidos concentraria tropas na região. Por coincidência, o local contém uma das maiores reservas de petróleo do país.O projeto que redesenharia o mapa da região ainda teria outra vertente: a transferência dos palestinos que hoje estão em locais próximos às colônias israelenses para esse novo reino. Fontes lembram que a rainha da Jordânia, Rania, é de origem palestina e vivia no Kuwait quando Saddam Hussein invadiu o país. Questionada pela AE sobre essa possibilidade, a rainha desconversou: "Não falo sobre política".O fato é que não está excluído dos planos a tentativa de justificar a transferência da população para o novo país pela existência de uma "rainha palestina", de 31 anos, indicada como uma das mulheres mais elegantes do mundo e que sobreviveu aos ataques de Bagdá.Mais uma vez, o ministro jordaniano Al-Moashar nega que tal hipótese esteja sendo negociada. "Sabemos que os palestinos não aceitariam outra solução que não seja ter seu próprio Estado para toda sua população", afirmou o chanceler. Mas um alto funcionário da Autoridade Palestina na ONU deixou claro que teme que esse seja o cenário após a queda de Saddam Husseis. "Trata-se de uma guerra também contra os palestinos", afirmou o diplomata à AE.Apesar de Washington ainda não ter tomado uma decisão final sobre o plano, a oposição já é grande e inclui o Irã, a Arábia Saudita e a Síria, sem falar nos grupos étnicos no Iraque que acreditam que serão prejudicados.

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