Após sequestro, empresário fugiu para lado americano

Militares resgataram Pepe Yanar de cativeiro, mas cartel continuou a fazer ameaças contra ele e a família

Denise Chrispim Martin, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2011 | 03h06

No início de dezembro, Carlos Guzmán, de 34 anos, porteiro da indústria Jonar, em Ciudad Juárez, foi assassinado a tiros à luz do dia. Guzmán não bebia, tinha excelente folha de serviço, não demonstrava ter mais dinheiro do que o salário e estava namorando uma das costureiras da firma. Não havia razão aparente para o crime, que incomodou especialmente o patrão da vítima. Pepe Yanar sobrevivera a um sequestro dois anos atrás e deixara Juárez depois de ter sua família também ameaçada.

De um escritório em El Paso, onde vive com a mulher e os três filhos desde então, Yanar acompanha o movimento de sua indústria de móveis, em Juárez, tocada por 46 funcionários.

Na parede em frente à sua escrivaninha está ligada uma televisão onde se vê as imagens captadas por 16 câmeras instaladas na fábrica. Yanar, de origem libanesa, disse que necessita de mais câmeras para "enxergar lugares ainda obscuros".

O empresário foi sequestrado em 5 de novembro de 2009, dia de seu aniversário. Saíra mais cedo da fábrica para passar na casa da sogra, onde foi abordado por três homens armados - um deles, com uma metralhadora. Com os olhos tapados e as mãos amarradas, foi levado em uma caminhonete até uma casa protegida por uma grade alta de ferro. Um dos sequestradores começou a negociar sua libertação. Sem trato, a discussão sobre o resgate de US$ 300 mil alcançou sua família.

"Sempre disse à minha mulher que não ficaria quieto em uma situação como essa. E não fiquei", lembrou, em relato ao Estado. Trancado em um quarto escuro, Yanar começou a prestar atenção nos ruídos e a buscar informações cada vez que pedia para ir ao banheiro. Notou que a casa era muito pequena. Aos poucos, foi desamarrando as mãos, deixando a corda ainda ao redor dos pulsos para não chamar a atenção.

Quando as conversas entre os sequestradores silenciaram, encontrou o momento da reação: teria de caminhar até a porta, e saltar a grade e correr para a avenida. "Eu rezava, mas não tive tempo nem de chorar nem de ter medo. A adrenalina estava a mil."

O plano foi cumprido até a grade de ferro, intransponível. Agarrado pelo único sequestrador presente na casa naquele momento, Yanar reagiu e, entre gritos de socorro, atracou-se com o criminoso. Conseguiu bater sua cabeça no cimento e fazê-lo perder os sentidos. Mas, quando novamente tentava escalar a grade, o sequestrador ameaçou disparar seu revólver.

De volta ao quarto, Yanar notou uma patrulha policial batendo na porta da casa e, em seguida, partindo. Uma vizinha havia alertado a polícia. A casa foi invadida em seguida pelos militares, pondo fim a seu cativeiro de 18 horas.

Pesadelo. O tormento, entretanto, não estava terminado. No dia seguinte, com a família em sua casa, o empresário recebeu um telefonema do "comandante". "Não é porque você escapou que não tem de pagar. Quero ser seu amigo", afirmou um homem, supostamente membro do Cartel de Juárez, com o cuidado de descrever tudo o que se passava dentro da casa dele e como cada um de seus parentes estava vestido.

Favorecido por uma sobrinha que trabalha no Serviço Secreto americano, Yanar conseguiu apoio do Consulado dos EUA em Juárez para mudar-se rapidamente, com a família, para El Paso.

Do outro lado da fronteira, recebeu um aparelho com dois botões, sempre trazido à cintura. Quando os dois são pressionados ao mesmo tempo, a polícia é alertada. Sua antiga casa está à venda. "Tudo está à venda em Juárez", resumiu o empresário.

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