EFE/EPA/ETTORE FERRARI
EFE/EPA/ETTORE FERRARI

Após ser epicentro da doença, Itália reabre gradualmente

País vive mistura de alívio e ansiedade após longo confinamento e quase 30 mil mortes

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2020 | 10h17

ROMA - A Itália, o primeiro país a confinar toda sua população para conter o avanço do novo coronavírus, iniciou nesta segunda-feira, 4, uma abertura gradual da nação, que continua dependendo da evolução da pandemia para seguir em vigor. Agora, os italianos podem sair de casa para caminhar, correr ou andar de bicicleta. Também está permitido visitar parentes desde que eles morem na mesma região e os funerais podem receber até 15 pessoas.

"É a hora da responsabilidade", afirma em editorial o jornal Corriere della Sera, ao recordar o desafio de 60 milhões de italianos após quase dois meses de confinamento. "O futuro do país está em nossas mãos", reitera o jornal, assim como explicou o primeiro-ministro Giuseppe Conte ao anunciar as novas medidas.

Stefano Milano, um romano de 40 anos, diz estar feliz por recuperar um pouco de sua liberdade, mas admite que tem medo porque tem parentes idosos e porque o sogro tem câncer.

A ambivalência resume o estado de ânimo de um país que oscila entre o alívio e a ansiedade, sufocado por um longo isolamento, abalado por economia em forte contração e traumatizado pela morte de quase 30 mil pessoas, um balanço oficial provavelmente inferior à realidade.

Como funciona na prática

Quase 4,4 milhões de trabalhadores que não podem atuar em 'home office' devem retornar às obras, lojas, fábricas e escritórios, mas com a obrigação de respeitar a distância, inclusive nos transportes públicos, que devem funcionar com capacidade reduzida. O uso de máscara é obrigatório. 

Os aeroportos menores da Toscana e de Roma foram autorizados a abrir as portas, uma espécie de teste geral para organizar os controles, mas Ciampino, nas proximidades da capital, estava vazio durante a manhã.

O país, no entanto, não retomará as aulas de 8,5 milhões de estudantes, ao que parece até setembro, nem autorizará piqueniques aos fins de semana na praia. Museus, comércios varejistas e bibliotecas só devem retomar as atividades em 18 de maio. Missas e espetáculos artísticos permanecem proibidos. Bares e restaurantes só podem vender comida para o cliente retirar e levar. Os certificados de deslocamento continuam obrigatórios. 

"Tenho cinco funcionários em desemprego técnico. Sem turistas e sem conseguir abrir durante a noite, só consigo atender os moradores do bairro. É duro", conta Sandro, 64 anos, proprietário do restaurante Cinque em Trastevere, que posicionou uma mesa na entrada para entregar cafés e frutas. "2020 é um ano perdido", resumiu Daniele Minotto, da Associação de Hotéis de Veneza.

A incerteza persiste no país e alguns temem o eventual aumento da curva epidemiológica. "Eu imploro, não baixem a guarda", suplicou o coordenador da célula de crise, Domenico Arcuri. A pandemia dividiu a península, com a região norte com dezenas de milhares de infectados e mortos e o sul com 300 vítimas fatais no máximo em determinadas áreas.  

Quase dois meses depois do início do confinamento, analistas preveem que a terceira maior economia da União Europeia deve sofrer uma recessão de entre 8 a 10%. Milhões de postos de trabalho estão em perigo e a dívida pública provavelmente deve superar 155% do PIB.  / AFP

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