Após superpoderes, presidente egípcio é acusado de virar 'novo faraó'

Oposição denuncia 'golpe de estado' e organiza protestos; juízes ameaçam fazer greve.

BBC Brasil, BBC

23 de novembro de 2012 | 09h00

Os principais integrantes da oposição egípcia se uniram para protestar contra decretos que concederam "superpoderes" ao presidente egípcio, Mohamed Mursi, e limitaram o alcance das decisões do Judiciário do país.

Figuras opositoras importantes, como o ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, Mohamed El-Baradei, o líder do Patido da Dignidade, Hamdin Sabahi, e o ex-Secretário Geral da Liga Árabe, Amr Moussa, acusaram o presidente de dar um "golpe" para transformar-se em um "novo Faraó" e, em uma entrevista coletiva, conclamaram a população do país a sair às ruas para protestar.

"Mursi usurpou todos os poderes do Estado e se nomeou novo faraó do Egito. Trata-se de um grande golpe na revolução, que pode ter consequências desastrosas", escreveu Baradei no Twitter.

"(Esses decretos) são um golpe contra o império da lei e a independência judicial", disse Ahmed Zend, presidente do Clube dos Juízes, a maior associação de magistrados egípcios.

A manifestação foi marcada para esta sexta-feira (dia 23) na Praça Tahir, no Cairo. Os juízes egípcios também ameaçam fazer greve.

Decretos

Mursi promulgou os decretos que lhe deram superpoderes um dia depois de ajudar a intermediar um acordo entre Israel e o Hamas que cessou o conflito na Faixa de Gaza.

Eles impedem o Judiciário de interferir em decisões do Executivo ou deliberar sobre qualquer medida tomada por Mursi desde que ele assumiu a presidência, em junho, até que um novo Parlamento seja eleito, no próximo ano, e uma nova Constituição entre em vigor.

Também impedem os juízes egípcios de dissolverem a Comissão Constitucional - hoje dominada por simpatizantes de Mursi, ligados ao grupo islâmico Irmandade Muçulmana.

Para completar, o presidente também determinou que o mandato do procurador-geral egípcio tenha um limite de quatro anos, o que lhe permitiu destituir Abdelmeguid Mahmud, acusado de cometer falhas na investigação de figuras ligadas ao governo do General Hosni Mubarak.

Mursi foi eleito em 2011, após a destituição de Mubarak, que governou o Egito por três décadas e caiu em meio aos protestos da chamada Primavera Árabe.

Mubarak foi condenado à prisão perpétua em junho, sendo responsabilizado pela morte de manifestantes. Um dos decretos de Mursi também determina que ele seja submetido a mais "investigações e julgamentos".

Nos últimos meses, a oposição a Mursi não havia conseguido articular um discurso unificado. As recentes medidas do presidente, porém, alarmaram seus líderes."Trabalharemos juntos como egípcios até que alcancemos os objetivos da Revolução", afirmou Baradei. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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