Após suspensão, golpistas pedem diálogo à OEA

Governo de facto estaria cedendo por causa de pressões econômicas; países estudam sanções unilaterais

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

06 de julho de 2009 | 00h00

O governo de facto de Honduras disse à Organização dos Estados Americanos (OEA) que está disposto a negociar, informou ontem à tarde um funcionário de alto escalão do governo americano. Segundo o funcionário, que concedeu entrevista a jornalistas por telefone, a disposição do governo de começar uma negociação é "bem-vinda", mas ainda não há detalhes sobre quais os objetivos da negociação. No entanto, em Tegucigalpa, o ministro das Relações Exteriores do governo de facto, Enrique Ortez, disse à Reuters que a negociação não envolve a volta do presidente deposto, Manuel Zelaya, que seria "não negociável".O governo de facto de Honduras começou a ceder porque está sob intensa pressão econômica. Segundo fontes, Honduras tem petróleo suficiente para apenas mais seis dias. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, grande aliado de Zelaya, cortou na quinta-feira o fornecimento de petróleo subsidiado para Honduras. Além disso, vários países estudam sanções contra o governo hondurenho. Na resolução aprovada pela OEA na madrugada de ontem, além de suspender Honduras da organização, foi incluída uma cláusula exortando países a "revisarem suas relações" com o país. O texto foi proposto pelo Brasil como forma de avançar na pressão sobre o governo golpista, em vez de ficar apenas com a suspensão de Honduras da OEA, que já havia sido indicada. O Brasil já estuda possíveis sanções contra Honduras. Em Brasília, o objetivo seria garantir que a suspensão de ajuda não afete a população, sendo apenas um instrumento de pressão sobre o governo ilegítimo. "Não haverá nenhum corte de programas sociais. O destinatário dessas medidas não pode ser o povo hondurenho", disse o embaixador do Brasil na OEA, Ruy Casaes. Os EUA já cortaram a cooperação militar com Honduras e suspenderam temporariamente parte da ajuda financeira. "Estamos fazendo uma pausa nos programas", disse ao Estado uma fonte do departamento. Programas de ajuda humanitária e de promoção de democracia não foram cortados. Honduras também teve suspensos mais de US$ 200 milhões em empréstimos do Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento.No sábado, durante a reunião da assembleia extraordinária da OEA, o secretário-geral José Miguel Insulza fez um relatório sobre sua tentativa de negociação em Tegucigalpa, na sexta-feira. Insulza afirmou que encontrou no país "um ambiente de extrema tensão" e disse que a posição do governo era "muito rígida e inflexível".A resolução determinou a suspensão de Honduras da OEA, que implica na retirada da Junta Interamericana de Defesa e no isolamento regional. Além disso, a entidade não reconhece nenhum ato do governo de facto. Portanto, a decisão do governo de se antecipar a Insulza e se retirar da OEA era "inexistente", disse Casaes.Insulza estava voando para a capital de El Salvador na companhia dos presidentes latino-americanos Cristina Kirchner (Argentina), Fernando Lugo (Paraguai) e Rafael Correa (Equador). PUNIÇÕES EUA - Já cortaram a cooperação militar com Honduras e suspenderam temporariamente parte da ajuda financeira. BID - O Banco Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento suspenderam mais de US$ 200 milhões em empréstimos a Honduras até que a democracia seja restaurada. Líderes - Horas depois do golpe, líderes do mundo, desde o presidente dos EUA, Barack Obama, até o da Venezuela, Hugo Chávez, se recusaram a reconhecer o novo governo de Honduras. Eles declararam que Zelaya era o presidente legítimo. América Latina e UE - Líderes de esquerda latino-americanos retiraram seus embaixadores de Honduras e nações da América Central suspenderam por 48 horas suas transações comerciais com o país, levando a perdas de US$ 61 milhões. Países da União Europeia também retiraram seus representantes diplomáticos de Tegucigalpa.

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