Cameron McLaren/WP
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Após susto, Nova Zelândia completa um mês de reabertura total sem grandes problemas

País apontado como exemplo no combate à covid-19 registra casos importados, mas consegue conter o vírus

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2020 | 04h00

O registro de dois testes positivos para coronavírus após um hiato de 24 dias sem novos casos não interrompeu o sonho da volta ao normal na Nova Zelândia. Bares, escolas e cinemas continuam abertos, com cuidados, mas sem restrições; o clima geral é de tranquilidade, embora o governo não descarte o risco de uma segunda onda no futuro, relatam brasileiros que moram na ilha. 

O susto aconteceu no dia 16 de junho. Duas cidadãs neozelandesas recém chegadas do Reino Unido testaram positivo para o vírus após terem recebido uma permissão especial, chamada compassionate leave, para visitar um parente em estado terminal. Antes de terem recebido os resultados, elas haviam percorrido cerca de 650 km entre as cidades de Auckland e Wellington, entrando em contato com cerca de 320 pessoas no caminho. 

Residente em Wellington, a cantora, radialista e intérprete Alda Rezende conta que a notícia dos primeiros dois novos casos foi um “banho de água fria”. “Depois de muitos dias sem nenhum caso, foi um choque”, diz. “Essas permissões por compaixão foram canceladas agora, e o monitoramento vai ser ainda mais severo”.

Desde então, o governo informou 22 novos casos – todos importados de outros países e contidos nas fronteiras. Não há registro de transmissão comunitária no território.

Na capital há 16 anos, Alda afirma que a Nova Zelândia teve um “procedimento exemplar” durante a pandemia. “O lema do governo foi ‘Nova Zelândia unida contra a covid’, e realmente foi isso que aconteceu”, diz. “Tivemos um lockdown absoluto. Tudo fechado, com exceção de hospitais, farmácias e supermercados. As ruas foram policiadas e apenas trabalhadores essenciais podiam circular." 

Quarentena efetiva

Outro lema do governo, conta Alda, foi "hit it hard and hit it early" (combata rápido e combata cedo, em tradução livre). “Antes que houvesse qualquer morte, nós já estávamos em lockdown. Nem mesmo a oposição contestou a decisão. Todos cooperaram”, conta. 

A quarentena, iniciada no dia 21 de março, funcionou a partir de um sistema de quatro níveis de alerta, onde 1 significava o menor risco de infecção e 4 o mais alto. 

Moradora de Raglan, pequena cidade litorânea nas proximidades de Hamilton, a microempresária Simone Carter conta que a quarentena foi implementada mesmo sem nenhum registro de infecção no município. “No nível 4, apenas serviços essenciais funcionavam, e toda a população ficava em casa, podendo sair apenas quando era indispensável e para fazer uma hora de exercício ao ar livre”, diz. “Os negócios começaram a reabrir na fase 2, com número reduzido de pessoas, e na fase 1 a vida está praticamente normal”. 

Trabalho em equipe

Moradora de Auckland, a maior cidade do país, a nutricionista e pesquisadora Wanessa Sarmento afirma que a maioria da população respeitou as regras. Além da organização e da estrutura do país, ela destaca a relação de confiança entre o governo e o povo como um dos fatores determinantes para o sucesso.

Parte do grupo de risco da doença, Wanessa conta ter ficado “aterrorizada” quando a pandemia começou. “Mas como pesquisadora, entendo de epidemiologia e vi que o plano do governo era bom. Houve comunicação com seriedade, planejamento, avisos, sistema de screening. Acho que é por isso que as pessoas respeitaram: elas viram seriedade”, diz.

De Hamilton, o designer gráfico Pedro Marques também destaca a ação do Estado no combate à covid. “Antes mesmo da OMS decretar pandemia, a (premiê) Jacinda Ardern já tratava como uma, impondo medidas restritivas”, conta. “A forma como ela lidou com tudo foi muito clara, uma mensagem só. Havia transparência de dados, respeito à ciência e também humanidade no discurso." 

A participação ativa da população, conta, fez muita diferença. “Foi um combo: o papel da Jacinda e o papel que as pessoas tomaram para si, se colocando como co-responsáveis”, diz. “Como ela dizia, era um time de 5 milhões: muitas ONGS prestavam assistência para idosos, pessoas recebiam em casa turistas que ficaram presos no país. Aqui existe muito esse senso de comunidade, e não só na época da pandemia”. 

Retorno consciente

A dentista Fernanda Winiawer Znamensky, que mora em Auckland, relata um sentimento de confiança durante a crise. “Foi tranquilo porque nós sabíamos que em algum momento a situação ia ser resolvida. Nós víamos todo mundo cooperando. Por mais ansioso que você ficasse dentro de casa, sabia que estava cumprindo a parte ruim, mas ia ter recompensa”, diz. 

Há quatro semanas, tudo funciona normalmente no país. Fernanda conta, no entanto, que a reabertura acontece a passos lentos. “Na primeira semana, não saímos muito. Na segunda, fui ao centro e ele estava bem vazio. O shopping também. Não é um clima de ‘liberou, faz o que quer’”. 

Também em Auckland, Wanessa conta que bares e restaurantes estão funcionando, mas com concentração máxima de 100 pessoas. “Nós sempre somos aconselhados a não ficar muito perto das pessoas que não são da nossa bolha”, conta. Máscaras são raras, já que o foco está na distância de 2 metros. “Estamos na vida normal, mas não em clima de festa”.

Para Pedro, a sensação é quase futurista. “É anacrônico ver as notícias do mundo todo e ver como as coisas estão aqui. Nós já passamos por isso, eu me sinto como se estivesse no futuro". 

O desafio, agora, é a retomada da economia. “Muita gente perdeu o emprego, apesar da ajuda do governo”, conta Pedro. Ele optou por trabalhar 4 dias por semana, em um novo modelo que está sendo testado no país. “Por enquanto está em aberto (o período de duração do novo contrato), mas acho que esse talvez seja o novo normal”, diz. 

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