Christof Stache/AFP
Christof Stache/AFP

Após tensões com Merkel, governo Trump vai retirar 12 mil soldados da Alemanha

Presidente americano anunciou mês passado sua intenção de cortar em cerca de um terço o contingente na Alemanha; Pentágono alega que movimento é estratégico enquanto presidente diz que Berlim não cumpre meta de gastos com Otan

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2020 | 18h00

WASHINGTON - As Forças Armadas dos Estados Unidos divulgaram nesta quarta-feira, 29, planos para retirar cerca de 12 mil soldados da Alemanha, em consequência da longa disputa do presidente Donald Trump com o país europeu, mas disseram que quase metade das tropas continuará na Europa devido às tensões com a Rússia.

Trump anunciou no mês passado, em meio a um período de tensão com a chanceler alemã, Angela Merkel, sua intenção de cortar em cerca de um terço o contingente de 36 mil soldados americanos na Alemanha. Ele acusa o país aliado de não cumprir a meta de gastos em defesa da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). O republicano também considera que Berlim se aproveita de Washington em questões comerciais.

O secretário de Defesa americano, Mark Esper, garantiu que o objetivo era estratégico, particularmente como elemento de dissuasão contra a Rússia - que em 2014 anexou a Crimeia. 

Do contingente na Alemanha, cerca de 6,4 mil serão mandados para casa, enquanto outros 5,6 mil serão transferidos para outros países da Otan, principalmente Bélgica e Itália, afirmou o secretário. Muitos dos repatriados farão parte de grupos rotativos que retornarão para a Europa no futuro.

Mas apenas alguns minutos após a entrevista coletiva de Esper no Pentágono, Trump afirmou que a retirada se deve à recusa da Alemanha em "pagar mais".  

“Não queremos mais ser os otários”, disse Trump a repórteres na Casa Branca, nesta quarta-feira, sobre a decisão. “Estamos reduzindo as forças porque eles não estão pagando suas contas, é muito simples.”

Trump deu a entender que decisão poderia ser revista se a Alemanha deixar de ser "morosa". "Se eles começarem a pagar suas contas, eu poderia repensar, eu pensaria sobre isso", disse. 

A iniciativa, estimada em vários bilhões de dólares, reduziria as forças americanas na Alemanha a cerca de 24 mil soldados, disse Esper. 

O Comando Militar dos Estados Unidos na Europa (Eucom), atualmente sediado em Stuttgart, mudará para Mons, na Bélgica, onde está localizado o comando da Otan, poupando as transferências do general americano que tradicionalmente lidera os dois comandos. 

Segundo Esper, um esquadrão de caças F-16 com base na Alemanha será enviado para a Itália, mais perto do Mar Negro, para proteger o flanco sudeste da Otan.

Mudança estratégica importante

O Comando Militar dos Estados Unidos para a África (Africom), em Stuttgart, também pode se mudar, mas ainda não foi tomada uma decisão, disse o chefe do Pentágono. 

Os 2,5 mil soldados da Força Aérea dos EUA que se encontram na base de Mildenhall, no Reino Unido, e seriam reposicionados na Alemanha, permanecerão em solo britânico.

Washington também avalia a transferência de forças para a Polônia e os países bálticos, se Varsóvia cumprir um acordo já preparado pelos dois lados. 

Esper disse que os primeiros movimentos podem começar em "algumas semanas", mas não se espera uma retirada imediata.

O número dois do Estado-Maior Conjunto dos EUA, o general John Hyten, enfatizou que a iniciativa era, no momento, apenas um "conceito". "Agora temos de fazer um plano", disse. 

"O reposicionamento de nossas forças na Europa representa uma mudança estratégica importante e positiva", disse o chefe do Pentágono.

"Essas mudanças vão permitir alcançar os princípios centrais para elevar o nível de dissuasão dos EUA e da Otan contra a Rússia, fortalecer a Otan, tranquilizar os aliados e melhorar a flexibilidade estratégica dos EUA", completou.

Impacto econômico e estratégico 

Embora o número de tropas tenha diminuído desde o fim da Guerra Fria, a Alemanha abriga mais tropas americanas do que qualquer outro país europeu, um legado da ocupação aliada após a 2ª Guerra.

A medida pode ter um impacto econômico e estratégico significativo no país europeu, onde dezenas de milhares de soldados americanos têm sido destacados desde então.

Os líderes de quatro Estados regionais alemães escreveram aos legisladores dos EUA pedindo que evitassem reduzir a presença militar ameriana no país./ Reuters, AFP e EFE

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