AP Photo/Yorgos Karahalis
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Após tentativa de golpe, exército turco está enfraquecido frente o EI e o PKK

Para analistas, expurgo promovido pelo presidente Recep Tayyip Erdogan contra os supostos envolvidos na revolta faz com que país tenha dificuldades para 'contribuir com a segurança da região'

O Estado de S. Paulo

27 de julho de 2016 | 10h58

ANCARA - O frustrado golpe de Estado de 15 de julho e o expurgo posterior ordenado pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, deixaram o Exército enfraquecido, em um momento em que a instituição atua em duas frentes: a guerra contra os rebeldes curdos e a luta contra a organização extremista Estado Islâmico (EI). O futuro dos militares será decidido, em parte, na quinta-feira, 28, durante um conselho militar supremo em Ancara.

Com 750 mil soldados, em grande parte recrutas, o exército turco é a segunda maior força da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Até 2010, a Constituição assinalava-o como "guardião da República turca" e laico, ainda que esse prestígio já faça parte do passado: quase um terço de seus generais está preso.

Para Sinan Ülgen, presidente do Centro para os Estudos Econômicos e de Política Exterior de Istambul (Edam), "o golpe de Estado frustrado terá consequências na capacidade da Turquia em contribuir para a segurança regional". "A moral e a coesão" do exército se verão "inevitavelmente afetadas".

Além disso, uma "confiança enfraquecida" tornará "particularmente problemática a cooperação entre o Exército, a polícia e os Serviços de Inteligência", assinalou Ülgen em recente análise.

Luta contra o EI e o PKK. Os americanos tiveram que recorrer a seus geradores na base de Incirlik, de onde saem, desde 2015, seus bombardeiros para atacar os extremistas na Síria: os turcos cortaram a eletricidade. A base foi um dos focos da sublevação contra Erdogan e o comandante, o general Bekir Ercan, está detido.

Apesar disso, para Stephen Biddle, do Conselho de Relações Exteriores com sede em Washington, Incirlik "não é determinante na campanha contra o EI": apenas faz com que "os bombardeios saiam menos caros e sejam mais eficazes", mas outras bases turcas poderiam cumprir essa função.

Mais preocupante é a falta de determinação de Ancara na hora de controlar suas fronteiras, já que dela depende "a capacidade do EI para se manter financeiramente através da exportação e do contrabando, e para receber combatentes estrangeiros", opina Biddle.

A Turquia não demonstrou muito interesse em vigiar sua fronteira por não ter se tornado alvo do EI e, se mantivesse a baixa vigilância, isso "teria consequências muito mais negativas do que a perda de bases militares", advertiu o especialista.

As hostilidades no sudeste do país contra o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) foram retomadas há um ano, e já custaram a vida de 500 membros das forças de segurança turcas. Ancara deverá substituir o, até agora, responsável pela guerra contra os curdos, o general Adem Huduti, que atualmente está atrás das grades.

Apesar disso, "a maior parte dos combates eram assumidos pela gendarmeria", relativiza Bulen Aliriza, do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), explicando que este órgão, que era comandado pelo Ministério da Defesa, passará a ser responsabilidade do Ministério do Interior. Ainda "é cedo para predizer as consequências", diz Aliriza.

Consequências. A resposta do governo turco ao golpe suscita "dúvidas sobre a confiabilidade da Turquia como aliado", considera Marc Pierini, ex-embaixador da União Europeia em Ancara e analista do Carnegie Europe.

Enquanto numerosos interlocutores habituais dos americanos e das forças da Otan estão hoje detidos, existe também o problema das armas nucleares mantidas em Incirlik. Ao mesmo tempo, o Ocidente vê com preocupação a repentina aproximação, após meses de tensão entre Ancara e Moscou.

Para Bruno Tertrais, da Fundação para a Investigação Estratégica (FRS) de Paris, uma ruptura com a Otan "não beneficiaria a Turquia, mas Erdogan é capaz de tomar decisões pouco racionais". / AFP

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