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Após terremoto, expectativa sob os escombros

Lucía Zamora, de 36 anos, relembra os momentos de tensão e a alegria ao ouvir as equipes de resgate

O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2017 | 05h00

CIDADE DO MÉXICO - À 13h09 do dia 19, Lucía Zamora trabalhava tranquila em seu escritório e cinco minutos depois estava presa entre os escombros do terceiro andar de um edifício no bairro Roma, da Cidade do México.

Magra, de 36 anos, especialista em consultoria de mercado, Lucía passou mais de 30 horas presa em um reduzido espaço entre os destroços do prédio de seis andares na Rua Álvaro Obregón.

Do lado de fora da montanha de entulho, cerca de 40 famílias rezam para que seus entes queridos sejam resgatos a salvo, como Lucía. As equipes de resgate pretendem encerrar as buscas nesta quinta-feira.

Quase quatro dias depois de sair pelo buraco feito pelas equipes de socorro, Lucía continua acomodando suas lembranças. Depois do choque, busca saber o motivo de ter ganhado esta "segunda oportunidade" na vida.

Ela tem vívidos vários momentos: "Começou a tremer, peguei meu celular e segui para a recepção. Um companheiro, Isaac, nos dizia que seguíssemos para as escadas de emergência. Mas fiquei na metade do caminho quando o teto desabou sobre nós".

O pior apenas começava: "Quando tudo terminou de cair se escutavam gritos, gente chorando e o primeiro que fiz foi pegar meu celular para ver se conseguia telefonar, mas não havia sinal. Depois lembro que rezei".

A distância entre a placa de cimento e seu rosto era de apenas um palmo. "Percebi que estava ilesa, tinha apenas alguns arranhões, e estava ao lado de Isaac", que também foi resgatado na mesma quarta-feira à noite.

Na escuridão, Lucía perdeu um pouco da noção de tempo e espaço. "Creio que estava inclinada para o lado direito e a meu lado Isaac estava de bruços, praticamente não podia me mexer."

Então começaram a se falar: "Você está bem? Tem ferimentos? Está sangrando", perguntaram-se.

"Conforme as horas passavam, pouco a pouco fomos aceitando a realidade e cada vez que ouvíamos um ruído gritávamos sem parar para que nos escutassem", relembra.

Os dois se perguntavam o que tinha acontecido com as outras pessoas do prédio e tentavam saber o local exato onde estavam presos. Também questionaram se haviam feito algo errado que os impediu de escapar a tempo. Mas Isaac lembrava que estavam indo para a escada de emergência: "Fizemos o que tínhamos de fazer", disse.

Se alternavam para dar-se força emocional. Lucía dizia a Isaac que se tivessem dado mais dois passos talvez teriam sido esmagados, mas na maioria do tempo se animava com o fato de ainda estar viva.

Logo escutaram a voz de uma mulher que trabalhava no quarto andar. Agora, os gritos que os socorristas poderiam escutar eram de três.

"O resgate ocorreu somente no dia seguinte, não sei direito o horário, mas algo entre 4 e 5 horas (do dia 20). Começamos a escutar ruídos e as máquinas cada vez mais próximas. Foi aí quando mais nos unimos para gritar", disse Lucía.

"Por fim escutamos um homem perguntar 'estão aí?' e nos enchemos de uma alegria muito especial." Ainda demorou outras cinco ou seis horas para que fossem liberados. Quando perceberam que era cada vez maior a possibilidade de continuar com suas vidas, a voz dos socorristas foi um oxigênio.

"Faziam brincadeiras, nos faziam prometer que os convidaríamos para um jantar. Me diziam que tinham visto uma foto minha e eu tinha um sorriso lindo", relembra rindo. "Ninguém deve perder a esperança na vocação dessas pessoas", disse, acrescentando: "Estiquei um braço e um socorrista segurou minha mão. Foi um alívio, mas ainda não conseguia ver a luz."

"Ao sair estava chovendo e a chuva no rosto foi a sensação mais maravilhosa da vida, de gratidão, e todos os socorristas aplaudiam. Cada vida que salvam é uma grande celebração, consideram como um nascimento", conclui Lucía, que ainda não acredita ter saído com tão poucos ferimentos, apenas uns arranhões, principalmente na perna direita. / AFP

 

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