Javier Torres / AFP
Javier Torres / AFP

Presidente do Chile diz que país está em guerra; nº de mortos sobe para 11

Crise social atual é a mais grave do país em três décadas; centenas de voos foram cancelados e milhares de pessoas aguardavam nos terminais; Bolsonaro diz que situação preocupa governo brasileiro

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2019 | 07h25
Atualizado 21 de outubro de 2019 | 12h15

SANTIAGO - O Chile está "em guerra", afirmou na noite de domingo, 20, o presidente Sebastián Piñera, depois que o país foi abalado por três dias de manifestações violentas e saques que deixaram 11 mortos e quase 1,5 mil detidos, na crise social mais grave em três décadas. Na manhã desta segunda-feira, 21, o presidente Jair Bolsonaro disse que os confrontos na nação vizinha preocupam o governo brasileiro. "Tudo o que acontece na América do Sul a gente se preocupa", disse ele ao ser questionado por jornalistas. Bolsonaro está em Tóquio para a cerimônia de coroação do imperador Naruhito.

"Estamos em guerra contra um inimigo poderoso, implacável, que não respeita nada nem ninguém e que está disposto a usar a violência e delinquência sem nenhum limite", declarou Piñera após uma reunião com o general do Exército Javier Iturriaga, que comanda a força de segurança em Santiago no momento.

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O presidente explicou que Santiago e outras 9 regiões das 16 que formam o Chile se encontram em estado de emergência, com 9,5 mil militares e policiais nas ruas. 

Piñera ressaltou que os sistemas de metrô e trem funcionarão parcialmente nesta segunda-feira, primeiro dia útil depois de três jornadas de distúrbios, assim como hospitais e algumas escolas e creches, e apelou aos chilenos que se unam e ajudem seus vizinhos a se manter em segurança.

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"Estamos muito cientes de que (os responsáveis pelos distúrbios) têm um grau de organização, logística, típicos de uma organização criminosa", disse ele. "Hoje não é hora de ambiguidades. Peço a todos os meus compatriotas que se unam nesta batalha contra a violência e a delinquência."

O ministro do Interior, Andrés Chadwick, confirmou no domingo a morte de sete pessoas, todas durante saques: duas no incêndio de um supermercado e cinco em um incêndio de uma fábrica têxtil. Nesta segunda, as autoridades confirmaram a morte de mais quatro pessoas, todas na região metropolitana.

Chadwick explicou que a decisão de ampliar o estado de emergência foi tomada em meio a uma “escalada de violência e vandalismo”. Ele também afirmou que foram registrados 70 “incidentes sérios de violência” no domingo, incluindo saques a 40 supermercados e outros pontos comerciais, e que os efetivos militares e policiais em Santiago - em torno de 10,5 mil - serão reforçados onde necessário.

Transporte público

O metrô de Santiago - que estava fechado desde sexta-feira, depois que 78 estações e trens sofreram ataques, em um prejuízo calculado em mais de US$ 300 milhões pela empresa estatal que administra o serviço - abriu parcialmente nesta segunda.

A estação La Moneda, a poucos metros do palácio presidencial, abriu suas portas às 7h, permitindo a entrada de dezenas de pessoas que esperavam impacientes para entrar em um trem. Vários soldados acompanhavam o movimento, segundo um jornalista da Agência France-Presse.

La Moneda é uma das 27 estações da linha 1, que vai do leste ao oeste da capital chilena. É a única linha que a estatal Metro de Santiago abriu para aliviar o caos nos transportes públicos. Mesmo assim, ela operará com sua capacidade reduzida.

O governo chileno anunciou que, além do metrô, colocará à disposição da população mais de 500 ônibus municipais e interurbanos para atender à demanda dos habitantes de Santiago.

Caos nos voos

A situação em Santiago provocou o cancelamento de centenas de voos no aeroporto, enquanto milhares de pessoas aguardavam nos terminais. Os estudantes convocaram novos protestos para esta segunda-feira e as autoridades preveem uma grande dificuldade nos transportes públicos.

As manifestações explodiram após o aumento do preço da passagem do metrô - medida que o governou cancelou - e eram inimagináveis há alguns dias, quando Piñera classificou o país como um "oásis" de estabilidade. Contudo, os protestos apresentaram também outras reivindicações em uma sociedade que registra um grande descontentamento.

Milhares de passageiros presos no aeroporto, voos cancelados e/ou reprogramados foram registrados em Santiago no domingo, em razão do toque de recolher decretado pelo governo do Chile ante os violentos protestos.

Os corredores do principal terminal aéreo chileno foram transformados em dormitórios, onde alguns passageiros dormiam no chão enquanto outros formavam grandes filas em frente aos painéis das linhas aéreas esperando notícias de seus voos, após centenas deles que sairiam do Chile serem cancelados ou reprogramados.

"Estamos aqui por causa do toque de recolher. Não sabemos nada sobre nossos voos. Se cancelarem, teremos que fazer filas enormes para saber o que vai acontecer. Não sabemos se as manifestações vão piorar", disse uma estudante peruana que chegou ao Chile para participar de um congresso de ciências florestais junto a outras 120 pessoas.

Sem comida ou água e sem poder sair do terminal em razão do toque de recolher e da falta de transportes, os passageiros esperavam pacientemente para ver se os itinerários seriam alterados.

"Em razão da situação atual em Santiago e outras cidades do Chile, a Latam Airlines Group teve de cancelar todos os voos do aeroporto de Santiago entre as 19h de hoje (domingo) e as 10h de amanhã (segunda-feira)", informou a maior companhia da América Latina, que não chegou a suspender dois voos com destino a Lima e um para Madri.

A empresa aérea de baixo custo JetSmart também anunciou o cancelamento de 11 voos domésticos, 1 para Lima e reprogramou outros 20. A Sky Airline cancelou 20 voos e outras companhias internacionais atrasaram seus itinerários. / AFP e REUTERS

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