Após triunfo, PP vê crise se agravar e monta transição

Banco quebra, recessão é anunciada e futuro premiê pede ajuda à Alemanha para sobreviver à turbulência na zona do euro

JAMIL CHADE , ENVIADO ESPECIAL / MADRI , O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2011 | 03h03

Um dia após a vitória nas eleições gerais na Espanha, o Partido Popular (PP) pressionou o primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero a acelerar a transição de poder. O pedido foi apoiado pelo mercado financeiro e líderes europeus diante do agravamento da crise no país. Ontem, o Banco de Valência quebrou, a recessão foi anunciada no país, a bolsa caiu e o risco país disparou.

O futuro primeiro-ministro, Mariano Rajoy, não esperou nem um dia para pedir ajuda da chanceler alemã, Angela Merkel, para conter a turbulência e alertar: a Espanha não tem mais condições de sair da crise sozinha.

Os investidores querem mais que a maioria absoluta de Rajoy nas eleições. Defendem que o processo de transição comece imediatamente. "Isso prova que não existem milagres", reconheceu Dolores de Cospedal, secretária-geral do PP.

Em um reconhecimento explícito do risco que a Espanha corre, Rajoy pediu ontem ajuda a Merkel e disse que a responsabilidade pelo resgate de um país não deve ser restrito à medidas internas de austeridade.

O futuro primeiro-ministro insistiu em seu compromisso com o euro e garantiu que cumprirá as exigências de fazer duros cortes nos gastos da Espanha, de mais de 20 bilhões. Mas alertou que a estratégia para sair da crise só vai funcionar quando houver uma "estratégia de toda a zona do euro para salvar nossas dívidas".

A Alemanha é contra o uso do Banco Central Europeu para socorrer governos, que já custou aos cofres públicos 187 bilhões. O problema é que o bloco ainda não chegou a um acordo para criar um fundo de resgate.

O premiê eleito insistiu que a Espanha não tem como se financiar com taxa de juros de quase 7%. Para Rajoy, assim como é responsabilidade de Madri cumprir o plano de cortes, cabe à UE financiar os que precisam de ajuda e dão demonstrações de seriedade em seus compromissos. Para Rajoy, a Espanha não pode ser tratada da mesma forma que países que não cumprem as exigências da UE - como Grécia e Itália.

Se Rajoy prometia austeridade, os mercados não deram trégua e querem detalhes dos planos do premiê eleito para reduzir o déficit público espanhol e a saída imediata de Zapatero. O problema, para o mercado e para a União Europeia, é que a transição de poder na Espanha poderá durar até o Natal.

Ontem, o risco país da Espanha atingiu 463 pontos básicos, perto do recorde. A taxa de juros sobre a dívida soberana espanhola chegou a 6,5%, e a Bolsa de Madrid sofreu queda de 3,4%. "O novo governo não terá uma lua de mel longa", ironizou Geoffrey Yu, analista do banco UBS.

Estatização. Uma demonstração da fragilidade das finanças espanholas foi a decisão de emergência do BC local de injetar 3 bilhões para salvar o Banco de Valência, prestes a falir. Foi o primeiro banco a ser oficialmente resgatado na Espanha e mostrou que a turbulência nos mercados teve impacto na economia. Com a alta na taxa de risco país, o banco foi afetado por um rebaixamento de sua classificação. Ficou sem acesso a créditos e não teve como honrar suas dívidas.

O segundo recado de que a transição precisa ocorrer rápido veio da própria Merkel. Em pleno caos financeiro, ela não entrou em contato com Zapatero, como tem feito de costume, mas manteve uma conversa de 20 minutos com Rajoy. Na pauta, "os grandes problemas da Espanha". Merkel cobrou soluções rápidas e pediu pressa na definição do pacote de austeridade que Rajoy terá de propor.

Disputa. Um dia após a eleição, Rajoy nomeou a pessoa que será responsável por coordenar a transição de poder a partir de hoje. A escolhida, Soraya Santamaria, rapidamente anunciou que a Espanha vivia momentos de "emergência" e também defendia a aceleração na transição.

Um dos principais aliados de Rajoy, Miguel Arias, também defendeu a mudança no prazo. A governadora da região de Madri, Esperanza Aguirre, foi ainda mais contundente. "A Europa e os mercados não podem esperar", disse ao Estado.

Em uma reunião que manteve ontem com seus aliados, Rajoy se limitou a pedir uma transição "o mais rápido possível". Mas insistiu em respeitar os prazos. Zapatero prometeu que não vai criar problemas para entregar o cargo. Mas rejeita uma aceleração do processo e quer ser o representante espanhol na cúpula da União Europeia (UE) em 9 de dezembro. "A transição começa em 13 de dezembro", disse.

O socialista, porém, admitiu que encontraria uma fórmula para dialogar com Rajoy sobre os temas importantes. "Vamos colaborar. A situação é complicada e vamos enfrentar as questões que temos de enfrentar", disse.

Questionado sobre a pior derrota do Partido Socialista na era democrática da Espanha, Zapatero se limitou a culpar "a grave crise internacional" e alertou que é sempre fácil criticar estando fora. "Os espanhóis sabem que tínhamos todo o vento em sentido contrário. A situação é muito grave e, como governo, enfrentamos a pior crise na era democrática", disse. "Tomei as decisões que eram necessárias, custasse o que custasse para garantir a solvência do país", disse.

Zapatero, porém, admitiu que seu partido terá de passar por uma ampla renovação de lideranças e de projetos. "Na democracia, os cidadãos sempre acertam", concluiu.

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