Após um ano de mandato, Bolívia de Evo está dividida

O presidente da Bolívia, Evo Morales completa segunda-feira um ano de governo com muito barulho político. À frente do país mais pobre da América do Sul, ele conseguiu a façanha de chamar a atenção da mídia no exterior - um feito para um governante boliviano - e despertou ódio de setores empresariais e políticos, além de manter a simpatia de movimentos de camponeses mesmo sem apresentar, em 12 meses, sinais claros de como reduzir a pobreza.Em mensagem que será lida nesta segunda-feira no Congresso, o primeiro presidente indígena eleito no país destacará que as exportações aumentaram de US$ 2,7 bilhões em 2005 para US$ 4,5 bilhões no primeiro ano de sua gestão com as medidas tomadas na área do gás. Dados das Nações Unidas mostram que a redução da miséria é um desafio enorme para o governo dele. Dos 8,5 milhões de bolivianos, 58% vivem em situação de pobreza. Em algumas cidades, o índice chega a 80%.Evo conhece bem essa realidade. Ele atuou durante anos como líder sindical de plantadores de coca de Chapare, na região central da Bolívia. A meta do presidente é reduzir, nos cinco anos de mandato, de 35% para 27% o porcentual de pessoas na extrema pobreza.Enquanto a oposição reclama que o governo é autoritário, representantes de movimentos sociais destacam a maior participação popular nos destinos do país. "No governo Evo, o povo está participando e fiscalizando", avalia o sindicalista Diodato García, integrante do grupo que na semana passada invadiu o palácio do governo do Departamento (estado) de Cochabamba, administrado por Manfred Reyes Villa, um adversário do presidente. "Eles não podem falar nada do governo, pois não fizeram nada pelo povo e querem continuar roubando." Os empresários dizem que Evo não dá segurança para os investidores externos. A Câmara de Comércio e Indústria de Santa Cruz (Cainco), uma espécie de Fiesp boliviana, indica que os investimentos na área petrolífera só caem. Em 1998, o total de recursos aplicados no setor chegou a US$ 605 milhões, caindo para US$ 200 milhões em 2005. Já no primeiro ano de governo Evo, que em maio ocupou uma refinaria da Petrobrás e anunciou a nacionalização do gás, o valor não teria passado de US$ 100 milhões, segundo estudos em fase de conclusão. Em se tratando de disputa política, os números podem oscilar bastante. A Cainco, opositora clara de Evo, apresenta outros números na área do trabalho. A taxa de desemprego teria passado de 8,7% em 2005 para 11,7% no ano seguinte.Gabriel Dabdoub, presidente da Cainco, alfineta e diz que Evo não é o responsável pelo aumento das exportações. O empresário afirma que o recorde foi resultado da aprovação da Lei dos Hidrocarbonetos, no governo interino de Eduardo Rodríguez (junho de 2005 a janeiro de 2006), que passou a cobrar imposto de 32% das empresas petrolíferas e reforçar as auditorias e fiscalizações. No mesmo dia em que Evo completa um ano de governo, movimentos sociais ligados a ele prometem uma greve geral e uma marcha contra o governador oposicionista de La Paz, José Luis Paredes, que defende maior autonomia em relação ao governo central. Já o deputado oposicionista Peter Maldonado, líder da bancada da Unidade Nacional (UN), partido que se intitula de centro, avalia que a marcha é um constrangimento para Evo, pelo fato de o presidente supostamente não conseguir estabilidade política para a Bolívia. "Esse clima ruim pode ser uma ameaça para o próprio governo", afirma Maldonado.Crítico mais radical, o senador Jorge Aguilera, do conservador Poder Democrático Social (Podemos), ironiza o presidente. "A maior virtude do primeiro ano do governo do presidente Evo foi a de unir todas as oposições e, podemos dizer, unir todo o povo boliviano que não necessariamente pensa como o movimento socialista", disse. "Esse governo é totalitário, não respeita a propriedade privada nem as aspirações individuais dos cidadãos."Mais moderado, o deputado Guillermo Mendoza, do UN, e presidente da Comissão de Política Social da Câmara, ressalta que Evo deve usar o dom do carisma na união de todos os segmentos para mudar a realidade da Bolívia. "O grande desafio do presidente em 2007 é justamente lançar pontes e incluir todos no processo de mudança", salienta. "A mensagem de confronto só está servindo para ressuscitar a direita", completa. "O governador de Cochabamba, Reyes Villa, por exemplo, é um expoente forte da direita, um ex-cadáver político que ressuscitou na memória do povo."

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