Após um ano, EUA fazem homenagem às vítimas do atentado ao Consulado em Benghazi

Ataque da Al-Qaeda em 11 de setembro de 2012 ainda afeta a política americana

Denise Chrispim Marin, O Estado de S. Paulo,

11 de setembro de 2013 | 06h00

Os Estados Unidos renderão nesta quarta-feira, 11, pelo 12.º ano consecutivo, homenagens às vítimas dos atentados terroristas da Al-Qaeda em seu solo. Os quatro mortos em 11 de setembro de 2012, quando grupos da Al-Qaeda no Magreb atacaram o Consulado dos Estados Unidos em Benghazi, na Líbia, serão igualmente relembrados, assim como a obscuridade em torno desse episódio. Perguntas simples continuam sem respostas e, passados 12 meses, nenhum dos terroristas responsáveis foi preso. Para a perplexidade de observadores americanos, a encarregada de divulgar a versão falaciosa de que não se tratara de uma ação terrorista, Susan Rice, ascendeu à posição de conselheira de Segurança Nacional do presidente Barack Obama.

O ataque deu-se às 21h40, no momento em que o então embaixador americano na Líbia, Christopher Stevens, recolhia-se a um dormitório do prédio. Veículos com tração nas quatro rodas e símbolos do grupo extremista Ansar al-Sharia despejaram cerca de 150 homens armados com granadas, fuzis AK47 e FN F2000. Eles escalaram os portões e muros, amparados por ataques de morteiros vindos dos veículos. Tyrone Woods e Glen Doherty, ambos ex-soldados das forças especiais da Marinha que atuavam na segurança do consulado, Sean Smith, técnico de computação, e o próprio embaixador Stevens morreram.

Susan Rice tornou-se no final daquele ano uma vítima indireta do episódio. Cinco dias depois do ataque, a então embaixadora dos EUA nas Nações Unidas apareceu nos programas dominicais de televisão para divulgar a versão oficial: o ataque fora o resultado de um protesto de muçulmanos contra um filme, produzido nos EUA, que maculara a imagem do profeta Maomé. A versão não se sustentou.

A evidência do ato terrorismo minou a indicação de Rice para o Departamento de Estado, no lugar de Hillary Clinton. Rice acabou nomeada por Obama para o Conselho de Segurança Nacional, cujo titular não tem de receber a anuência do Congresso. Hillary assumiu a responsabilidade pelo episódio, especialmente pelas falhas da segurança do consulado. Mas deixou o cargo em janeiro e só voltará a ser chamada a explicar sua omissão em 2016, se candidatar-se à sucessão de Obama pelo partido democrata.

No momento em que ameaça em público com a intervenção militar na Síria (embora agarre-se a toda e qualquer opção para evitá-la), o presidente americano cobre o episódio de Benghazi com a mais estrita confidencialidade.

"Acho hipócrita dizer que temos de ir à Síria por causa das armas químicas quando não fomos à Líbia defender o nosso pessoal no consulado", afirmou o ex-deputado federal Allen West, hoje diretor do NextGeneration.tv, em um debate organizado pela Heritage Foundation. "Falhamos em Benghazi. Temos de lembrar esse episódio até sabermos a verdade."

West levantou apenas algumas das perguntas ainda sem respostas: por que o embaixador Stevens estava em Benghazi naquele dia? Diversos agrupamentos militares americanos e milícias líbias aliadas poderiam ter sido enviados para um contra-ataque. Por que não houve reação? Por que Susan Rice, e não Hillary ou Obama, foi escalada para apresentar a versão fictícia ao público americano?

"Eu não aceito as desculpas dadas até agora", afirmou o ex-deputado.

Nessas respostas, entretanto, poderiam estar o caráter da relação mantida pelos EUA com o governo líbio e com as milícias islâmicas. Pelo menos uma delas, a Brigada dos Mártires de 17 de Fevereiro, daria proteção ao consulado na época. O embaixador Stevens teria, entre suas prioridades, a tarefa de negociar com as milícias armadas pelos EUA, para combater as forças de Muamar Kadafi, a entrega das armas. A CIA, na ocasião do ataque, estava monitorando a Ansar Al-Sharia e a rede da Al-Qaeda no Magreb e mantinha dezenas de agentes em Benghazi.

Gregory Hicks, ministro-conselheiro da embaixada americana na Líbia na ocasião, afirmou ainda não entender a omissão militar americana. À rede de televisão ABC, no dia 8, ele lembrou que Woods e Doherty trabalhavam no anexo da CIA e foram mortos cerca de oito horas depois do início da invasão da Ansar Al-Sharia ao consulado. Poderiam ter sido salvos. Hicks foi a mais destemida testemunha durante os trabalhos da Comissão Especial de Inquérito da Câmara dos Deputados sobre o ataque de Benghazi. A comissão não chegou a nenhuma conclusão e teve seus trabalhos suspensos por pressão do presidente da Câmara, o republicano John Boehner, segundo West.

Hicks fora removido da Líbia logo depois de seus depoimentos no Congresso. À ABC, ele interpretou essa decisão de Washington como uma "punição". Outros funcionários americanos na Líbia, entre os quais agentes da CIA, foram induzidos a assinar um acordo de sigilo total sobre o episódio, disse. O Departamento de Estado rejeitou essa versão publicamente.

"Sua partida da Líbia foi totalmente desvinculada dos vários depoimentos dele sobre o ataque em Benghazi, e nós estamos trabalhando com ele sobre o seu próximo posto permanente", informou um porta-voz nesta semana. "Nós ainda não entendemos completamente o que aconteceu em Benghazi mesmo depois de um ano e quando estamos a um passo de nos lançar em outro esforço, desta vez contra o regime da Síria", insistira Hicks.

Até o momento, destacou o diplomata, nenhuma prisão foi realizada, mesmo com a identificação de vários participantes do ataque. Militantes de grupos extremistas no Magreb foram apenas indiciados, entre os quais Ahmed Abu Khatallah, suspeito de ser o fundador da Ansar Al-Sharia. Mas nenhum processo judicial chegou a ser aberto. A Casa Branca estaria, segundo o jornal New York Times, sem disposição para pressionar o governo líbio a efetuar as prisões ou a permitir às forças americanas se encarregar da tarefa. A promessa de Obama de trazer os responsáveis diante da Justiça continua, doze meses depois do atentado, longe de ser cumprida.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.