Após um ano, reconstrução no Japão engatinha

Sociedade japonesa ainda tenta encontrar forças para superar os prejuízos materiais e psicológicos do terremoto, seguido de tsunami e crise nuclear

CHICO HARLAN, THE WASHINGTON POST , ISHINOMAKI, JAPÃO, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2012 | 03h09

Um ano depois, nada foi resolvido em Ishinomaki, cidade da costa nordeste do Japão varrida há exatamente um ano pelo tsunami. Os detritos e a lama oceânica do último 11 de março foram raspados das paredes, retirados de cada porão e de todas as fissuras. Agora, os destroços estão empilhados em montanhas.

Mesmo após meses de limpeza, a reconstrução continua num ponto de partida. Pode tanto deslanchar quanto emperrar - isso depende da adesão das pessoas ao esforço.

Uma recuperação total, se for possível, levará pelo menos uma década, segundo as autoridades. Os moradores ao longo da costa atingida precisam estar dispostos a suportar condições duras. São casas pré-fabricadas sem aquecimento, comunidades que não oferecem empregos, sofrimentos que não desaparecem. Tudo à espera de que, ao fim, os japoneses recuperem suas vidas em uma cidade funcional.

Esse é um cálculo que Takahiro Chiba faz a cada dia. Ele diz que sua cidade, uma das maiores e mais duramente atingidas, parece apenas tolerável para se viver, mas não o suficiente para as pessoas se comprometerem com ela. "Não quero mais ficar em Ishinomaki", diz. No dia seguinte, desdiz: "Estou realmente pensando que devemos ficar".

Chiba vê mais esperança do que via um ano atrás. Não é apenas que os destroços foram limpos. Funcionários da prefeitura estão tentando atrair projetos de energia limpa e oferecendo incentivos fiscais para empresas que se realocarem na cidade. As linhas de suprimento voltaram. Uma loja de departamentos reabriu na semana passada.

O progresso do último ano, porém, ainda não começou a contrabalançar os danos da maior crise do Japão desde a 2.ª Guerra. O desastre triplo - um terremoto, um tsunami, e uma crise nuclear - deixou 19 mil mortos e desalojou cerca de 342 mil pessoas. Por causa da oposição pública à energia nuclear, somente 2 dos 54 reatores do Japão estão em operação atualmente, levando as companhias de eletricidade a ativar antigas usinas térmicas e a importar carvão e gás.

Logo depois do desastre, Ishinomaki praticamente parou. Os postos de gasolina estavam sem combustível e as lojas sem comida. Bairros inteiros ficaram destruídos.

Os moradores dizem que a limpeza foi a parte fácil. A cidade só agora está "numa encruzilhada", disse Toru Asano, o presidente da Câmara de Comércio. A parte difícil começa agora - coordenar uma recuperação econômica quando milhares estão endividados e não têm um lugar permanente para viver.

Cerca de 6 mil fugiram e 7 mil vivem em habitações temporárias, unidades construídas com tanta pressa que um funcionário municipal as comparou a "barracos". Outras dezenas de milhares viram suas vidas reviradas de cabeça para baixo pelo desastre.

Numa cidade de 153 mil habitantes, 1 em cada 3 casas ficou danificada ou destruída. Muitos se espremeram em residências de parentes ou permaneceram em casas abaladas para evitar a habitação temporária. Esperam o tempo passar e uma solução chegar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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