Nariman El-Mofty/AP
Nariman El-Mofty/AP

Após um mês de conflito em Tigré, qual é a situação na Etiópia

Operação militar ordenada por premiê desencadeou saques, falta de alimentos e deslocamento de homens, mulheres e crianças

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2020 | 04h30

TIGRÉ, ETIÓPIA - No dia 4 de novembro, o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, ordenou uma operação militar contra as autoridades dissidentes na região de Tigré, norte da Etiópia. 

Esta é a situação na região após quatro semanas de um conflito armado que o governo etíope considera "encerrado".

Quem são os beligerantes?

O conflito tem o exército federal etíope contra as forças da Frente de Libertação do Povo de Tigré (TPLF), o partido que governa este território onde vive a minoria Tigrés (6% dos 110 milhões de etíopes) e que desafiava a autoridade de Abiy há vários meses.

Ao tomar posse como primeiro-ministro em 2018, Abiy Ahmed afastou progressivamente a TPLF do sistema político e de segurança da Etiópia, que a Frente controlava há quase 30 anos.

Também assinou a paz com a vizinha Eritreia, um grande inimigo da TPLF desde a guerra entre os dois países entre 1998 e 2000. O acordo rendeu o prêmio Nobel da Paz em 2019 a Abiy Ahmed.

Em setembro, meses de tensões entre Abiy e a TPLF resultaram em eleições regionais em Tigré, consideradas "ilegítimas" por Adis Abeba.

No início de novembro, os ataques a duas bases do exército federal em Tigré, desmentidos pela TPLF mas atribuídos às forças locais por Abiy, justificaram o envio do exército para substituir a TPLF por "instituições legítimas".

Com está a situação militar?

As restrições impedem a verificação das afirmações dos dois lados, apesar de a rede de telefonia móvel e internet, cortada desde 4 de novembro, ter sido restabelecida em várias localidades do oeste de Tigré, sob controle do exército federal há quase três semanas.

Para o governo federal, as operações militares "terminaram" desde o anúncio de que o exército assumiu o controle da capital regional Mekele, no sábado, depois de 24 dias de conflito.

O governo afirma ainda que assumiu o controle quase total de Tigré.

O exército iniciou operações para procurar os líderes da TPLF, localizados 50 quilômetros ao oeste de Mekele, afirmou Abiy na segunda-feira.

A situação era considerada "tranquila" em Mekele, apesar dos "muitos saques", afirmou uma fonte diplomática no início da semana.

Mas o presidente de Tigré, Debretsion Gebremichael, acusou Abiy na segunda-feira de "tentar enganar a comunidade internacional a acreditar que tudo acabou" e afirmou à Agência France-Presse que os confrontos prosseguiram no domingo ao norte de Mekele.

Também declarou que suas tropas recuperaram a histórica cidade de Aksum e derrubaram um aparelho militar etíope. Não foi possível verificar as afirmações com fontes independentes e Adis Abeba permanece em silêncio.

Situação humanitária

Não há balanço de vítimas disponível, especialmente entre os civis, dos combates terrestres, disparos de artilharia e bombardeios aéreos.

Privado de abastecimento durante quatro semanas, Tigré carece de alimentos básicos, liquidez e combustível, segundo a ONU.

A Etiópia concedeu às Nações Unidas acesso ilimitado a Tigré e às zonas de fronteira das regiões vizinhas de Amhara e Afar, de acordo com um documento consultado pela Agência France-Presse na quarta-feira.

Antes do conflito armado, 600 mil habitantes de Tigré dependiam de ajuda para obter alimentos. Os estoques de mantimentos acabaram nos acampamentos que abrigavam 96 mil refugiados eritreus.

Os combates provocaram o deslocamento de homens, mulheres e crianças em Tigré. Mais de 45 mil pessoas buscaram refúgio no vizinho Sudão, onde muitas continuam chegando, apesar do colapso, segundo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

No principal hospital de Mekele, sobrecarregado pelo número de feridos, os estoques de remédios básicos e suprimentos médicos estão "perigosamente baixos", afirmou o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).

O governo federal - que afirma que o exército assumiu o controle de cidades sem provocar vítimas civis - anunciou em 26 de novembro a intenção de "responder rapidamente às necessidades da população de Tigré", mas não revelou as medidas adotadas.

Como a situação pode evoluir?

O objetivo do governo é deter os líderes de Tigré.

Debretsion Gebremichael disse à Agência France-Presse que está decidido a permanecer em Tigré para enfrentar os "invasores" e afirmou que dispõe de "forças armadas consideráveis e de artilharia pesada".

A TPLF tinha antes do conflito o máximo de 200 mil homens, de acordo com o International Crisis Group (ICG), que tem fontes em Tigré.

As baixas sofridas pela TPLF são desconhecidas, assim como a reação da população de Tigré à futura nova administração regional.

Mas os analistas temem a continuidade de um conflito assimétrico na região. "É provável que aconteça uma resistência armada, simplesmente não sabemos se será forte e duradoura", explica William Davison, pesquisador do ICG. /AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.