Após ungir novos líderes, China intensifica punição a corruptos

Aparentemente, cúpula do PC chinês tem incentivado denúncias na internet das ações ilegais de políticos locais

ANDREW JACOBS , THE NEW YORK TIMES / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2012 | 02h05

Os chineses se acostumaram até certo ponto com as histórias de autoridades vorazes acumulando apartamentos de luxo, relógios suíços de US$ 30 mil ou dinheiro roubado suficiente para comprar um Porsche para a amante.

Mas quando imagens de um funcionário do Partido Comunista, no sudoeste da China, fazendo sexo com uma jovem de 18 anos se espalharam pela internet no fim de novembro, até os mais calejados cidadãos tomaram nota.

Os últimos tempos têm sido tempos particularmente enervantes para autoridades chinesas que trapaceiam, roubam e aceitam suborno. Desde que o burocrata local, Lei Zhengfu, se tornou uma celebridade involuntária, uma sucessão de outros foi publicamente exposta. A maioria foi destituída do cargo enquanto investigadores do partido revistam seus quartos e contas bancárias.

Desde que o PC ungiu a nova safra de líderes supremos, a mídia estatal, muitas vezes alimentada por vigilantes freelance, vem oferecendo uma coleção alucinante de escândalos.

Os destaques incluem um dirigente distrital da Província de Shanxi, que teve dez filhos com quatro mulheres; um chefe municipal de Yunan viciado em ópio que conseguiu acumular 23 casas, incluindo seis na Austrália; e um burocrata de Hunan com US$ 19 milhões em ativos não explicados que certa vez deu à sua jovem filha US$ 32 mil em dinheiro para seu aniversário.

"Começou a tempestade anticorrupção", anunciou o Diário do Povo, o porta-voz do partido, em seu site neste mês.

A enxurrada de revelações sugere que os membros da nova liderança podem se mostrar mais sérios que seus antecessores na tentativa de domar as práticas de compadrio, suborno e corrupção que assolam companhias estatais e governos locais.

Os esforços começaram alguns dias depois que Xi Jinping, recém-nomeado chefe do PC e próximo presidente da China, advertiu que se o partido não conseguir controlar a corrupção, seu controle do poder estará em risco.

"Alguma coisa mudou", disse Zhu Ruifeng, um jornalista de Pequim que expôs mais de cem casos de alegada corrupção em seu site, incluindo as práticas libidinosas do sr. Lei. "No passado, podia levar dez dias para uma autoridade envolvida num escândalo sexual perder o emprego. Desta vez levou 66 horas." A libertinagem de Qi Fang, o chefe de segurança pública de uma cidadezinha no extremo oeste, provavelmente mereceria um prêmio de originalidade.

Neste mês, um detetive revelou na internet que Qi estava mantendo como amantes duas irmãs jovens. As irmãs também tinham conseguido empregos no departamento de polícia e dividiam um apartamento financiado pela cidade.

Qi perdeu o posto, mas não antes de negar a contravenção e corrigir um detalhe da história: as irmãs, ao contrário dos primeiros relatos, não são gêmeas.

Mesmo assim, apesar da libertinagem associada aos escândalos mais recentes, analistas dizem que ainda é cedo para saber se Xi e outros dirigentes de alto escalão terão estômago para mover uma guerra sem trégua à corrupção onipresente no partido.

Eles assinalam que a maioria dos escândalos recentes foi descoberta por jornalistas, cidadãos anônimos ou colegas ressentidos que postaram fotos e outras alegações danosas na internet, obrigando as autoridades a responder. É significativo também que a maioria dos demitidos são funcionários relativamente subalternos.

O gestor de uma importante empresa de internet disse que o partido estava efetivamente instigando o combate geral à corrupção ao não barrar as denúncias online. Mas disse que havia um entendimento implícito de que as autoridades de alto escalão estariam fora da devassa.

"Por enquanto, é espontâneo", disse o gestor, que pediu para o nome da sua empresa não ser citado em razão das sensibilidades políticas envolvidas. "Mas nós também compreendemos os parâmetros."

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