'Após vazamento, governos podem ter leis mais severas'

ENTREVISTA

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2010 | 00h00

Rosental Alves, diretor do Knight Center for Journalism nas Américas

O vazamento de documentos secretos pelo WikiLeaks pode mudar a maneira com que os governos guardam seus segredos, criando leis mais restritivas que podem atrapalhar o intercâmbio de informações. A avaliação é de Rosental Alves, diretor do Knight Center for Journalism nas Américas. Em entrevista ao Estado, ele alertou também para a mudança no padrão de comportamento em uma sociedade digital. A seguir, alguns trechos da entrevista concedida por e-mail.

O vazamento das informações pelo WikiLeaks é uma nova maneira de fazer jornalismo investigativo?

Não. Vazamentos não são jornalismo investigativo, embora possam fazer parte do processo de uma investigação jornalística. Muitas vezes, a investigação é derivada de uma outra investigação já em andamento, por exemplo. Ou seja, alguém no governo ou em uma corporação sabe que um jornalista está investigando algo e filtra documentos ou informações para colaborar com a reportagem. Nesse ponto, o vazamento passa a integrar a investigação. No caso do WikiLeaks, muitas investigações jornalísticas foram detonadas a partir dos documentos. A primeira é justamente o trabalho de filtrar os próprios documentos divulgados, mas também inclui a busca dos contextos de cada história revelada por eles. Meu argumento é que o vazamento, por si só, não é jornalismo investigativo, mas ela pode e deve criar uma investigação jornalística.

Como essas revelações influenciam o tipo de jornalismo que fazemos hoje?

O primeiro impacto para mim é o reconhecimento da importância e do valor do jornalismo tradicional. Você pode odiar o WikiLeaks pelo que ele está fazendo, mas você tem de reconhecer que eles buscaram um caminho bastante eficiente de obter a maior repercussão possível ao lançar mão do jornalismo tradicional e da credibilidade. Teria sido menos impactante se os documentos, desta vez e da anterior, fossem simplesmente publicados no site WikiLeaks. Ao dar os documentos antes para jornais de prestígio, com equipes de profissionais que se dedicaram a filtrá-los e interpretá-los, o impacto foi muito maior.

E qual o impacto fora do jornalismo?

O maior de todos é na forma como os governos cuidam de seus segredos. Os vazamentos estão mudando o mundo de uma maneira muito forte. Corremos o risco de termos leis muito mais restritivas e de procedimentos que podem atrapalhar o intercâmbio de informações dentro dos governos. Outra coisa importante é observar que estamos vivendo numa sociedade sustentada por bases de dados. Todas as nossas comunicações, muitos dos passos que damos cotidianamente, tudo deixa rastros digitais que antes não existiam. Esses rastros podem ser algum dia detectados em bases de dados com muita facilidade e divulgados. Isto vale para as câmeras que estão nos elevadores e nas ruas registrando nossos movimentos como vale para os documentos que escrevemos em nossos computadores.

QUEM É

O jornalista Rosental Calmon Alves, professor na Universidade do Texas e

diretor do Knight Center for Journalism nas Américas, centro criado em 2002 para treinar jornalistas e contribuir para a melhoria técnica e de padrões éticos da imprensa

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.