REUTERS/Henry Romero
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Após vetar volta de Correa ao poder, Equador reduz força do bolivarianismo

Na Bolívia, Evo Morales tenta contornar um revés similar que sofreu no referendo do ano passado; em baixa nas pesquisas, presidente boliviano se apoia em uma decisão judicial emitida no fim do ano favorável a nova candidatura

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2018 | 05h00

A vitória do “não” no plebiscito de domingo no Equador, que impede a volta de Rafael Correa ao poder, é a derrota eleitoral mais recente da trinca “bolivariana” que se formou na América do Sul desde o começo do século e um sinal claro de desgaste do movimento junto a sua base de apoio, avaliam analistas. 

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Enquanto Correa, depois de romper com seu herdeiro político, Lenín Moreno, recebeu uma dura derrota nas urnas, na Bolívia, o presidente Evo Morales tenta driblar um revés similar em um referendo no ano passado. O boliviano se apoia em uma decisão judicial emitida no fim do ano favorável a sua candidatura.

Para o cientista político boliviano Roberto Laserna, a derrota de Correa nas urnas deve servir de impulso para a oposição boliviana, que tenta impedir uma nova candidatura de Evo. Em baixa nas pesquisas, com uma aprovação de 22%, o presidente convocou uma marcha para o dia 21, data em que foi derrotado no referendo do ano passado, para demonstrar força. 

“Evo está cada vez mais aferrado a seus colaboradores próximos e distante da realidade social, que mudou muito na Bolívia”, diz Laserna. “A realidade econômica mudou muito e já há problemas de gestão do déficit fiscal, balança comercial e gestão cambial que ainda não foram sentidos pela população, mas que podem agravar o cenário macroeconômico no médio prazo. A derrota de Correa, bem como o que ocorre no restante da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas, da qual Bolívia, Venezuela e Equador fazem parte) servirá de estímulo.”

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Na segunda-feira, dia 5, o líder da oposição boliviana Samuel Doria Medina celebrou o “grande rechaço” do povo equatoriano à reeleição indefinida. “A etapa dos populismos na América Latina, marcada pelo caudilhismo autoritário, o desperdício e a corrupção está chegando ao fim”, disse em sua conta no Twitter. “Um novo caminho é possível.”

Pauta. Na Venezuela de Nicolás Maduro, a reação a esse desgaste veio com a instalação uma nova Constituinte que, na prática, suspendeu as funções do Parlamento de maioria opositora, eleito em 2015, e barrou os principais partidos de oposição de participar da eleição presidencial deste ano. 

No caso venezuelano, a derrota de Correa deve provocar um debate sobre a reeleição ilimitada, mas a fragmentação da oposição e a natureza duvidosa do processo eleitoral dificultam a possibilidade de um revés para o chavismo na avaliação de Luis Vicente León, do Instituto Datanálisis. “Na Venezuela ainda há um núcleo de apoio ao chavismo, principalmente em virtude do assistencialismo do governo, da figura muito forte de Hugo Chávez e da incompetência da oposição em unificar a insatisfação contra Maduro”, diz. 

Para o cientista político equatoriano Simón Pachano, apesar da derrota, Correa não pode ser dado como morto. “Correa ainda é a segunda força política do país, mas muito de seu apoio se perdeu no fim do mandato em virtude do mau momento econômico”, disse. 

Inspirados pela eleição de Hugo Chávez na Venezuela, em 1998, que assumiu o poder prometendo refundar a IV República venezuelana com uma nova Constituição e distribuição da riqueza do petróleo, Evo e Correa foram eleitos em 2005 e 2007, respectivamente. 

Também como Chávez, os líderes da Bolívia e do Equador refizeram as Constituições de seus países e mantiveram-se no poder por pelo menos uma década com o respaldo popular calcado distribuição da riqueza das commodities, em alta até 2014, em programas sociais para a população mais carente e obras de infraestrutura. 

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