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Após vitória, oposição começa a formar governo no Japão

Partido Democrático herda desafio de reativar a 2ª maior economia do mundo e desemprego recorde no país

31 de agosto de 2009 | 07h39

O líder da oposição no Japão, Yukio Hatoyama, deu início às negociações para formar o novo governo, depois da vitória esmagadora do Partido Democrático do Japão (PDJ) nas eleições deste domingo. A expectativa agora é se Hatoyama será capaz de cumprir suas promessas de campanha. Ele precisa levar a segunda maior economia do mundo de volta à rota de crescimento sustentável depois da recessão e combater o desemprego recorde.

 

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De acordo com projeções da mídia japonesa, o PDJ obteve 308 dos 480 assentos da Câmara Baixa do Parlamento do país, pondo fim a uma hegemonia de cinco décadas quase ininterruptas do Partido Liberal Democrático (PLD), do atual primeiro-ministro Taro Aso.  O PLD teria obtido 119 cadeiras, invertendo a posição dos partidos na Câmara Baixa. Os resultados oficiais das eleições ainda não foram divulgados, mas Taro Aso já anunciou que vai deixar a liderança de seu partido.

Hatoyama, que é neto do fundador da fábrica de pneus Bridgestone, deverá ser confirmado como o novo primeiro-ministro quando o Parlamento japonês se reunir, dentro de cerca de duas semanas. Seu partido também está em negociações com dois partidos menores, da oposição, cujo apoio será necessário na Câmara Alta do Parlamento. "Finalmente vamos conseguir mexer na política, criar um novo tipo de política que corresponda às expectativas das pessoas", disse Hatoyama nesta segunda-feira.

Diante da maior taxa de desemprego desde o fim da 2ª Guerra e um crescente sentimento de insegurança em relação ao futuro, os japoneses foram seduzidos pelas promessas dos democratas de reforçar a rede de proteção social. A definição do papel do Estado na economia e na vida dos cidadãos é a principal diferença entre liberais e democratas. A legenda vencedora defende o pagamento de generosos benefícios sociais e promete acabar com a cobrança de pedágios nas rodovias japonesas.

 

Hatoyama e seus seguidores afirmam que o aumento de dinheiro no bolso dos cidadãos é o modo mais eficaz de estimular a atividade econômica, enquanto o derrotado PLD é favorável à concessão de estímulos para as empresas. Mais do que votar a favor do PDJ, os eleitores votaram contra a permanência no poder do PLD, visto cada vez mais como aliado das grandes corporações e da poderosa burocracia japonesa.

Segundo a BBC, em nota divulgada neste domingo, a Casa Branca classificou as eleições no Japão como "históricas" e afirmou que o governo americano espera criar laços fortes com o novo governo. Durante a campanha, no entanto, Hatoyama já havia indicado que buscará uma política externa mais independente e mais distante dos Estados Unidos.

Segundo a agência de notícias Kyodo, o comparecimento às urnas foi de 69%, maior do que o de 67,5% nas eleições de 2005, quando o carismático Junichiro Koizumi foi eleito por uma larga maioria. Segundo as autoridades, os eleitores compareceram apesar das fortes chuvas em Tóquio, causadas pela aproximação de um tufão, e de um alerta de gripe suína emitido pelo governo.

 

Recursos para promessas

 

O Partido Democrático do Japão (PDJ) chega ao poder com uma plataforma que promete um Estado de bem estar social, com o aumento do valor das aposentadorias, a ajuda direta para educação dos filhos, a melhoria no sistema de saúde pública e subsídios para treinamento de desempregados.

 

O grande desafio da legenda será obter recursos para realizar suas promessas, algo que seus adversários julgam impossível. O Japão tem uma dívida pública equivalente a 200% do PIB, a maior proporção entre os países industrializados. O déficit fiscal está em alta e poderá passar dos 3% do PIB em 2007 para algo em torno de 10% do PIB em 2010, em razão do pacote de estímulo econômico adotado no ano passado.

Não por acaso, o provável futuro premiê, Yukio Hatoyama, disse em seu primeiro pronunciamento após a votação que a redução do gasto público estará no topo de suas prioridades.

 

Para cumprir suas promessas, o PDJ precisará de uma sobra de caixa de 16,8 trilhões de ienes (US$ 179 bilhões) ao ano, valor próximo a 3,6% do PIB. O partido sustenta que é possível obter esses recursos com o cancelamento de obras desnecessárias, a redução no número de parlamentares e funcionários públicos e o fim do desperdício na gestão governamental.

 

A mais cara proposta do PDJ é o pagamento de US$ 280 ao mês para os pais que tiverem filhos pequenos, além do benefício único de US$ 5.900 às famílias que tiverem bebês. O programa teria o custo de US$ 58,5 bilhões em 2011, quando estaria totalmente implementado.

 

A baixa taxa de natalidade é um dos principais desafios do Japão, que pode ver sua população diminuir em 25% até a metade do século. Segundo previsões oficiais, o total de pessoas com mais de 65 anos vai passar de 20% para 40% da população nesse período, enquanto o número de habitantes com menos de 15 anos diminuirá de 13% para 8,6%.

 

(Com Cláudia Trevisan, de O Estado de S. Paulo)

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