Aposta arriscada dos israelenses pode ajudar salafistas

Cenário: Ulrike Putz / Der Spiegel

O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2012 | 02h00

A recente ofensiva contra militantes palestinos na Faixa de Gaza, governada pelo Hamas, foi concebida mais como um espetáculo para o público israelense do que como o início de uma batalha decisiva. O primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, e o ministro da Defesa, Ehud Barak, têm boas razões para usar uma campanha bem-sucedida para ganhar pontos para as eleições parlamentares de 22 de janeiro.

Netanyahu, indubitavelmente, teme que o ex-primeiro-ministro Ehud Olmert tire votos do seu partido, o Likud, caso decida se candidatar. De fato, segundo muitos boatos, Olmert planejava anunciar sua candidatura precisamente na quarta-feira, mas a ação militar - Pilar de Defesa - mudou seus planos.

Tampouco Barak poderá continuar achando por muito tempo que o seu Partido da Independência, que se separou do Partido Trabalhista, em janeiro de 2011, conseguirá votos suficientes para manter suas vagas no Parlamento, o Knesset. Entretanto, o sucesso de uma ofensiva poderia estimular sua popularidade em queda e garantir-lhe algumas cadeiras.

Uma ofensiva que leve a população a cerrar fileiras com os militares também contribuiria para desviar a atenção dos prementes problemas sociais de Israel. Assim, enfraqueceria alguns grupos como o Partido Trabalhista e lhe custaria votos, ajudando os partidos de Netanyahu e Barak.

Mesmo que a ofensiva represente algumas vantagens políticas, também acarreta riscos consideráveis. Se a violência escapar do controle e houver uma escalada do conflito entre Israel e Hamas, transformando-se em algo parecido com a guerra de três semanas entre os dois, em dezembro de 2008, as consequências poderão ser dramáticas para os homens que orquestraram a ação.

O Hamas se sentiu reanimado pela recente vitória eleitoral, no Egito, da Irmandade Muçulmana. Há poucos meses, um grupo islâmico pôs em risco a paz lançando foguetes contra o território israelense e atacando patrulhas de fronteiras de Israel.

Um cálculo político interno também estava por trás da decisão palestina. A base de poder do Hamas está desmoronando. Muitos habitantes da Faixa de Gaza acreditam que a organização está muito enfraquecida e consideram o cessar-fogo com Israel uma traição.

Nos últimos anos, o apoio desses palestinos desiludidos migrou para grupos consideravelmente mais radicais. Adotando uma atitude mais belicosa, o Hamas espera reconquistar esses antigos simpatizantes.

Risco calculado. Na realidade, mais do que qualquer outra coisa, a presença desses grupos ultrarradicais na Faixa de Gaza poderá transformar a atual ofensiva de Israel numa aventura que acabará fugindo do controle. Provocados pelos ataques aéreos israelenses e pelo bombardeio de tanques por terra e de canhoneiras pelo mar, esses extremistas se sentirão menos propensos ainda a acreditar num cessar-fogo. Seus partidários esperam que eles assumam uma postura firme e rejeitem todo tipo de compromisso.

Esses grupos são afiliados a células terroristas na Península do Sinai e alguns deles têm vínculos com a Al-Qaeda. No passado, já bloquearam as tentativas de intermediários egípcios de conseguir um cessar-fogo. Nos próximos dias, Israel poderá se defrontar com uma situação em que o Hamas será incapaz de impor um cessar-fogo mesmo que queira.

Se isso ocorrer, o governo israelense não terá outra alternativa senão tomar toda a Faixa de Gaza. Entretanto, fazendo isto, enfraquecerá o Hamas a tal ponto que os outros grupos extremistas palestinos poderiam simplesmente colocá-lo em segundo plano.

Paradoxalmente, é do interesse do governo israelense não permitir que a atual ofensiva prejudique profundamente o Hamas, comprometendo sua permanência no poder. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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