Aposta dos mercados contra Espanha ameaça aprofundar crise

Novo choque em economia espanhola pode ser colocar país no alvo de especuladores.

Ruth Costas, BBC

18 Maio 2012 | 14h30

Em meio a especulações sobre uma saída da Grécia da zona do euro, os mercados financeiros voltaram suas atenções para outra economia em crise do sul da Europa: a Espanha.

Uma série de eventos colocou a credibilidade dos bancos espanhóis em xeque nesta semana e agora o risco apontado por especialistas é que a aposta dos investidores contra a recuperação da economia espanhola se torne uma "profecia autoanunciada".

"Com o aprofundamento da crise na Grécia, os mercados estão especulando sobre qual seria o próximo a entrar em colapso e os problemas do sistema bancário espanhol transformaram o país em um alvo fácil", diz o economista Ramón Pacheco Pardo, professor do King's College, em Londres.

Nos últimos dias, os juros pagos pelo governo espanhol para dívidas de dez anos chegaram a 6,5%. A taxa é por volta de dois pontos percentuais mais baixa que as que obrigaram Grécia, Irlanda e Portugal a apelarem para um pacote de resgate da União Europeia.

O Bankia, quarto maior banco do país, foi nacionalizado na semana passada. Na última quinta-feira, suas ações chegaram a cair quase 30% na bolsa de Madri por causa de relatos não confirmados de que correntistas teriam retirado 1 bilhão de euros em depósitos.

Para completar, alegando uma queda na capacidade do governo apoiar os bancos espanhóis em caso de insolvência, a agência Mody's rebaixou a classificação de risco de 16 instituições financeiras do país - inclusive o Santander e o BBVA.

"Sem dúvida há um ataque especulativo contra a economia espanhola, embora ele seja facilitado por problemas bastante sérios no sistema financeiro do país", explica

Pardo explica que que a desconfiança dos mercados alimenta na economia espanhola um ciclo perverso - ou uma espécie de profecia autoanunciada. Quanto mais os mercados desconfiam da solidez dos bancos, mais aumentam os juros cobrados do governo, que por sua vez tem menos recursos para apoiar os bancos e cumprir seus compromissos financeiros.

Desemprego e inadimplência

De acordo com os especialistas, são dois os principais entraves para uma recuperação espanhola.

Primeiro, as altas taxas de desemprego, de 25%, não só aumentam os gastos do governo com benefícios sociais como reduzem a capacidade de arrecadação, importante para cobrir os gastos públicos.

Segundo, o problema representado pelas hipotecas podres para os bancos espanhóis ainda não foi resolvido. Como garantia das dívidas que não estão sendo pagas, os bancos podem tomar os imóveis dos devedores.

"O problema é que, justamente por causa da crise, ninguém está comprando casa, então a instituição financeira não tem como vender esses ativos", diz Pardo.

Velázquez acrescenta a esses dois fatores uma questão política: "Provavelmente os bancos espanhóis precisarão de mais ajuda financeira, mas nenhum político quer ser visto como aquele que ajudou os banqueiros quando um quarto dos trabalhadores do país estava desempregado." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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