Apple causa furor em Havana

O cartaz é colorido, bem desenhado e anuncia consertos de celulares, especialmente de iPhones. Do lado de fora, uma fila de pessoas com seus brinquedos preferidos nas mãos. São os fãs da Apple em Havana, os donos desses extraordinários smartphones. Estão ali aqueles que conseguem comprá-los no mercado informal graças ao ingresso de alguns pesos conversíveis ou os que receberam os aparelhos de algum parente ou amigo radicado no exterior.

YOANI SÁNCHEZ - É JORNALISTA CUBANA, AUTORA DO BLOG GENERACIÓN Y. , EM 2008, RECEBEU O PRÊMIO ORTEGA Y GASSET DE JORNALISMO, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2012 | 03h03

Desvios de recursos do Estado e negócios eticamente reprováveis podem ser atribuídos a muitos desses adoradores das novas tecnologias. Os que não contam com nenhum acréscimo ao salário nem com um parente que emigrou sempre poderão pagar menos por uma imitação "made in China" das engenhocas de Steve Jobs.

Embora a Apple não tenha lojas em Cuba - como, aliás, nenhuma outra companhia americana -, a marca está entre mais as procuradas no amplo comércio ilegal. Em um país no qual a cada dia ficam mais visíveis as diferenças sociais, o telefone celular e o computador tornaram-se os símbolos de status mais valorizados. Entre a população circulam todos os tipos desses equipamentos. O cobiçado Samsung Galaxy S3 já pode ser comprado na ilha por meio de sites como o Revolico.com. Os HTC causam sensação e os BlackBerry, de teclado pequeno, têm um público apaixonado. Os produtos com o logotipo da maçã mordida, porém, são os mais valorizados entre aqueles com menos de 25 anos.

Aparelhos de iPhone de todas as gerações podem ser vistos nos lugares mais inusitados. Num ônibus lotado, onde viajam as pessoas mais humildes, de repente, se ouve um trinado: e aí está a estilizada criação do empreendedor californiano. Uma mescla de carência e sofisticação, atraso e modernidade, compõe nosso cotidiano.

A Apple demorará um pouco para abrir uma de suas lojas em Havana. As restrições do embargo americano, em vigor desde 1962, não deixam. No entanto, ao governo cubano tampouco agradaria deixar entrar em seu mercado de computadores e tecnologia, raquítico apesar do monopólio, um concorrente tão poderoso.

Em meados de 2008, quando as tímidas reformas de Raúl Castro autorizaram os cubanos a comprar equipamentos de informática, seus preços foram pensados em termos de um mercado cativo, sem outras opções. Nos primeiros meses depois do anúncio, era possível encontrar em lojas laptops com um preço que não baixava dos 2 mil e um PC, sem monitor, custava 900. Isso num país onde o salário médio mensal não passa dos 20.

É possível imaginar como os potenciais compradores escancaravam os olhos ao ver tamanho exagero. Apesar de números tão disparatados, os produtos eram vendidos - na falta de outra oferta legal - e atualmente é raro achar uma loja onde ainda se encontrem computadores em oferta. Continuam em exposição apenas algumas caixas já ultrapassadas, com uns poucos periféricos, como mouse e teclado. O fornecimento de material de informática não continuou, talvez porque se pretendia provocar apenas um enorme estardalhaço com o anúncio da flexibilização e, depois daquelas manchetes chamativas nos jornais, o governo perdeu o interesse em permitir que o povo continuasse se informatizando. Assim, o grosso da compra e venda de tecnologia continua ocorrendo nas sombras da ilegalidade.

Offline versus online. O mais surpreendente é que os técnicos locais fazem praticamente qualquer coisa com os produtos da Apple: instalam aplicativos, desbloqueiam os celulares da marca para que funcionem na companhia de telefonia cubana, trocam peças internas, desbloqueiam aparelhos para que eles sejam usados como modem, para todos os gostos e necessidades. Soluções muito inteligentes são encontradas para contornar o grande obstáculo da falta de acesso à internet para os aparelhos de tela sensível ao toque. De forma que, na falta de conectividade, são numerosas as ferramentas e os programas que funcionam offline. Por um preço que oscila entre 4 e 9, qualquer cliente pode sair de um desses centros privados de conserto de telefones com verdadeiras maravilhas.

Por exemplo, tornou-se muito popular uma versão completa da Wikipédia em espanhol que fica instalada na memória do aparelho, em versões com ou sem imagens nos artigos. Também muito procurados são os mapas de Havana e de toda Cuba, rua por rua, detalhe por detalhe, que também são incorporados ao smartphone. Em alguns desses dispositivos é possível ativar o sistema de localização, que não funciona via satélite, mas por meio da triangulação das antenas terrestres.

Assim, os espertos usuários conseguem localizar-se em um mapa e até ver a "bolinha azul" que avança entre o quadriculado das ruas enquanto se movimentam. Uma paixão especial surgiu com um aplicativo pirata que inclui o banco de dados da companhia telefônica Etecsa, com a qual é possível determinar o nome do proprietário do telefone de qualquer chamada que entra, seu endereço e até o número de sua identidade. Um horror! Não há nada que os cubanos, quando resolvem ser engenhosos, não consigam.

Em algumas entradas de edifícios, no centro de Havana, encontram-se os pontos de venda de acessórios para as criações da Apple: capas de silicone, fones de ouvido, carregadores de energia que se conectam a tomadas de carros, películas de acetato para cobrir a tela e evitar rachaduras, um mercado florescente de todo tipo de periféricos que gira ao redor dos telefones inteligentes. O mais surpreendente, porém, é que ele exista em um país onde nada disso é comercializado nas lojas oficiais.

Finalmente, quando a Apple aterrissar realmente em Havana, encontrará uma comunidade de seguidores que nem imagina ter na maior das Antilhas. Também se assombrará com as dimensões do mercado informal que se movimenta em torno da revenda de seus aplicativos e das "incursões" ousadas feitas no interior dos circuitos de seus iPhones e iPads. Quando a empresa fundada por Steve Jobs chegar - se é que chegará -, já teremos mordido a maçã de todos os lados. Mas não a teremos engolido, deglutido e incorporado às nossas vidas. Por enquanto, bom apetite. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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