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Anthony Wallace/ AFP
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Apple Daily, jornal pró-democracia em Hong Kong, é forçado a fechar

China fez campanha de repressão que levou ao fechamento do jornal, e polícia prendeu um redator como parte de uma investigação com base na lei de segurança nacional

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2021 | 13h32
Atualizado 24 de junho de 2021 | 12h46

HONG KONG - O Apple Daily, um jornal popular em Hong Kong, há muito tempo incomoda Pequim com seu apoio aos manifestantes pró-democracia, defesa de investigações agressivas de funcionários públicos e ridicularização da liderança do Partido Comunista Chinês. Agora a China silenciou efetivamente o jornal - e com ele, um de seus críticos mais desafiadores.

A direção do Apple Daily disse nesta quarta-feira, 23, que estava fechando, menos de uma semana depois de a polícia congelar suas contas, invadir seus escritórios e prender os editores do jornal, enquanto a escalada da campanha do governo chinês contra a dissidência agora ataca a liberdade de imprensa, antes intocável em Hong Kong.

O fechamento forçado do Apple Daily foi um golpe no caráter da ilha, disseram analistas. O jornal produziu ao longo do tempo uma série de reportagens sobre fofocas de celebridades e escândalos de integrantes do Partido Comunista, bem como notícias e análises políticas contundentes, sempre com uma inclinação decididamente antigovernamental e uma irreverência contra o Partido Comunista impensável no continente.

Mesmo diante de boicotes publicitários, ataques a jornalistas e ataques de bombas incendiárias, o jornal Apple Daily perseverou e prosperou, permanecendo como um dos jornais mais lidos em Hong Kong, uma prova viva das liberdades do território, apesar de seu retorno ao domínio chinês em 1997.

Quando os protestos antigovernamentais eclodiram em Hong Kong em 2019, representando o maior desafio político para Pequim em décadas, o Apple Daily apoiou abertamente o movimento, até imprimindo cartazes para os manifestantes.

Mas quando Pequim agiu para suprimir a resistência ao seu governo em Hong Kong com uma lei de segurança nacional abrangente, que impede qualquer tipo de manifestação anti-China, o espaço para a dissidência acabou. E o Apple Daily rapidamente se tornou um alvo-chave.

"O Apple Daily mostrou que temos uma sociedade vibrante, com liberdade de expressão e de imprensa", disse Emily Lau, uma ex-legisladora pró-democracia. "Mas depois de amanhã, o Apple Daily não existirá mais. Isso mostra que quando o governo chinês decide agir, pode ser muito rápido e brutal", disse Lau.

"Percebemos que a China está no controle. Na prática a soberania (de Hong Kong) é chinesa, por mais que países como Reino Unido e Estados Unidos contestem as ações", explica ao Estadão o professor de relações internacionais da ESPM-SP Alexandre Uehara, especialista em Ásia.

Primeiro, as autoridades prenderam o fundador do jornal, Jimmy Lai, no ano passado, e o acusaram de crimes de segurança nacional que acarretam pena máxima de prisão perpétua. Enquanto estava detido, ele também foi condenado à prisão por 20 meses por "envolvimento em protestos ilegais".

Então, na última quinta-feira, centenas de policiais invadiram a redação do jornal, retirando computadores, congelando os ativos e prendendo editores e executivos de alto escalão. Ryan Law, o editor-chefe, e Cheung Kim-hung, presidente-executivo da Next Digital, empresa controladora do jornal, foram acusados de "conspiração para cometer conluio com potências estrangeiras", sob a lei de segurança, e sua fiança negada.

Nos dias após a invasão, cópias do Apple Daily foram compradas por leitores como Bobo Cheung, um supervisor de um pequeno restaurante que as exibia no parapeito da janela do bistrô e as distribuía aos clientes. "Não achei que o Apple Daily se tornaria uma fruta proibida", disse Cheung. "Parece o fim de uma era."

Nesta quarta-feira, a polícia prendeu um dos principais redatores do jornal, Yeung Ching-kee, que escreveu colunas e editoriais com o pseudônimo de Li Ping. Yeung manteve os ataques do jornal ao Partido Comunista Chinês após a prisão de Lai em agosto. O partido e seus aliados em Hong Kong "decidiram estrangular o Apple Daily, para matar a liberdade de imprensa e de expressão de Hong Kong", escreveu Yeung.

"Mesmo quando o mundo democrático aumenta as ações e sanções, eles apenas intensificam a repressão e as acusações contra o Apple Daily, na esperança de que sucumbam à pressão e se rendam ou parem de publicar", escreveu ele.

Para Uehara, a tendência é que a pressão do governo chinês aumente. "Dois fatores levam a isso: o peso econômico de Hong Kong para a China hoje é muito menor do que era no passado. Se antes Pequim agia com mais timidez e comedida, agora não será mais assim. Além disso, a China é a segunda maior economia do mundo e é mais importante para os outros países do que era no passado."

O jornal e seu fundador

A identidade do Apple Daily reflete a de seu fundador, Jimmy Lai, que fugiu da China continental para Hong Kong ainda criança, e passou de um trabalhador de fábrica para se tornar um magnata do ramo de vestuário. Ele começou a ajudar a publicação após a repressão sangrenta da China aos protestos pró-democracia em torno da Praça Tiananmen em Pequim em 1989. Como Lai, seu jornal fragmentado, que ele fundou em 1995, tinha a fixação de apoiar a democracia e atacar o Partido Comunista Chinês.

“Eu acredito na mídia. Ao entregar informações, você está realmente entregando a liberdade”, disse ele ao The New York Times no ano passado.

Lai irritou Pequim logo de cara, chamando Li Peng, o oficial chinês que ordenou a repressão em 1989, de "filho de uma tartaruga". Depois disso, Pequim ameaçou bloquear sua empresa de roupas, a Giordano, de continuar a operar na China continental. Forçado a escolher entre roupas e a mídia, ele vendeu suas ações da Giordano em 1996 para se concentrar no negócio de notícias.

As publicações de Lai combinaram com sua obstinação, sempre perseguindo fofocas e escândalos políticos com igual entusiasmo. O jornal costumava publicar imagens picantes de estrelas e notícias de infidelidade de celebridades. Em seus primeiros anos, publicou até colunas sobre pornografia e críticas de bordéis, e os leitores reclamaram quando esse tipo de “resenha” foi reduzida.

Mas junto com o infotenimento escandaloso, o Apple Daily também investigou a corrupção local, expondo como vários funcionários de Hong Kong construíram extensões ilegais de suas casas. Ele regularmente investigava questões sociais, como a vasta desigualdade na cidade. O jornal teve um papel ativo na política local, convocando os leitores a tomarem as ruas em manifestações e até mesmo imprimindo cartazes para carregar.

A campanha do jornal rendeu a ele muitos críticos, entre eles Regina Ip, uma legisladora pró-Pequim, cujos esforços como funcionária em 2003 para aprovar uma lei de segurança local foram em parte prejudicados pela resistência pública que o jornal havia abertamente ventilado.

“O Apple Daily causou grandes danos ao ambiente da mídia”, disse Ip. “Foi processado por muitas pessoas por difamação, publicou histórias falsas e campanhas maliciosas contra pessoas de quem não gostam.”

Lai, o fundador, nunca se desculpou pela mistura de conteúdo espalhafatoso e nobre, comparando o Apple Daily a uma linha de roupas com muitas cores e estilos para atrair seus clientes.

Posição mais dura

Conforme a posição da China em relação às liberdades de Hong Kong endureceu no ano passado, Lai antecipou que os dias de seu jornal estavam contados. Em um ensaio ao The New York Times, em maio do ano passado, ele escreveu que há muito temia que o Partido Comunista "se cansasse não apenas da imprensa livre de Hong Kong, mas também de seu povo livre".

Nos meses desde a prisão de Lai no ano passado, muitos repórteres do jornal sentiram um senso maior de urgência para encontrar histórias importantes. "Não queremos esperar e morrer", disse Norman Choy, editor de reportagens. "Então, trabalhamos ainda mais para explorar mais notícias, mais histórias, cavando cada vez mais fundo."

Mas ele disse que os editores também tentaram ser mais cautelosos: o jornal parou de se referir ao novo coronavírus como o “vírus Wuhan” e evitou relatórios que abordassem sanções a Hong Kong e à China.

A pressão sobre a mídia vem crescendo há meses, à medida que as autoridades agiram para reformar uma emissora pública e alertaram os jornalistas contra a divulgação de “notícias falsas”.

Nesta quarta-feira, foi aberto o primeiro julgamento sob a lei de segurança nacional, um caso que vai indicar até que ponto a lei vai seguir a linha de criminalização do discurso político. "Vamos ver qual será o resultado desse julgamento. Pequim tende a usar o caso como exemplar para evitar novas mobilizações em Hong Kong, por isso deve ter mão de ferro no julgamento", diz o professor Uehara.

Com o fechamento do jornal, repórteres da equipe do Apple Daily, com cerca de 700 pessoas, se reuniram, chorando, e discutiram se deveriam sair mais cedo para limitar o risco de prisão ou ficar até o fim.

No ônibus da empresa que os levou de uma estação de metrô para a redação, alguns brincaram que parecia que estavam indo para um funeral. Uma repórter começou a escrever uma carta para seus pais detalhando o que eles deveriam fazer se ela fosse presa. Vários trabalharam no que chamam de "questão do obituário", a impressão final a ser lançada na quinta-feira.

Na redação na segunda-feira, Marco Cheung, um repórter de vídeo sênior, considerou suas opções com os membros de sua equipe. A polícia confiscou os seus discos rígidos durante a operação e eles estavam preocupados em serem presos. Os editores da equipe esperavam reunir alguns destaques do trabalho que a seção havia produzido, mas não tiveram tempo para concluí-lo.

Uma grande faixa vermelha com as palavras: "Colegas, vocês trabalharam muito!" estava pendurada na redação. Enquanto Cheung e outros colegas se reuniam no escritório para assistir à transmissão do episódio final de um programa do jornal que recapitulava as notícias do dia, alguns choraram; outros se abraçaram. “O caminho pela frente será difícil”, disse o apresentador do programa. "Desejamos paz a todos".

Empacotando as coisas em sua mesa, Cheung notou uma história de primeira página da edição do jornal de 4 de junho de 1999, marcando o 10º aniversário do massacre de Tiananmen, colada na divisória de vidro. Cuidadosamente, ele o tirou e deu a um colega.

"A sociedade está mudando muito rápido ou somos nós que não conseguimos acompanhar?", Cheung disse mais tarde em uma entrevista. "Talvez estejamos acostumados a uma sociedade com liberdade de expressão e ainda não nos adaptamos. Ainda não aprendemos como devemos sobreviver, se quisermos ficar em Hong Kong como jornalistas".

"A população de Hong Kong vive há muito tempo sob essa liberdade de expressão, política e econômica. Para essa população, não será tão fácil aceitar essas medidas (de Pequim) e pode haver o retorno das manifestações", explica Uehara, lembrando que os movimentos civis perderam força com a chegada da pandemia da covid-19 e acrescentando que existe a possibilidade de novos protestos acabarem de forma violenta. "Precisamos lembrar que a independência (de Hong Kong) é impensável para Pequim, não é factível pensar que a China deixaria que manifestações acontecessem sem que ela tivesse o controle". / NYT, Colaborou Fernanda Simas

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