Hussein Malla/AP
Hussein Malla/AP

Apreensão cresce entre brasileiros no país

Avião enviado à Líbia para resgatar cidadãos não obteve autorização para voar

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2011 | 00h00

O clima entre os cerca de 600 brasileiros que vivem na Líbia, segundo estimativa do Itamaraty, é de apreensão. Desde que os confrontos começaram - primeiro em Benghazi, agora na capital, Trípoli -, eles vivem a tensa expectativa de sair do país em segurança.

"Nossa empresa disponibilizou um avião em Trípoli, mas ainda não tem autorização para o voo", diz Jórbelin da Silva Serqueira, técnico de saneamento da construtora Queiroz Galvão, que está em Benghazi há 9 meses. Cerca de 90% dos brasileiros na Líbia atuam no setor de construção civil ou petróleo, em empresas como Odebrecht, Andrade Gutierrez, Petrobrás e a própria Queiroz Galvão. "E se eles se arriscam voar e o presidente manda um caça abater o avião?", questiona.

É com esse tipo de temor que os estrangeiros convivem nesse momento. Serqueira está, com mais dezenas de brasileiros, em um hotel distante dos pontos de manifestação de Benghazi, onde, segundo ele, Kadafi não manda mais. "Aqui, a oposição já tomou conta. No domingo, ainda ouvimos muitos tiros, mas agora os revolucionários foram para Trípoli." Ele e os colegas estão seguros, com estoque de comida e acesso a canais internacionais de TV.

O momento de maior tensão foi quando o grupo atravessava a cidade para chegar ao hotel, guiado por um motorista líbio. "Passamos por homens fortemente armados e esse motorista nos disse que eram mercenários, contratados por Kadafi para matar opositores. Foi assustador."

Esportistas. Em Trípoli, a inquietação é maior. Heron Ferreira, técnico do time Al-Ahli, relata que, por causa do toque de recolher, das 16 horas às 9 horas, ele não testemunhou os conflitos. Mas ele e sua família ouvem do condomínio onde moram tiros e helicópteros sobrevoando a cidade desde sexta-feira. "A vida aqui sempre foi maravilhosa até o confronto", diz Ferreira, que tenta embarcar hoje com a mulher e a filha de 6 anos para Roma.

No mesmo condomínio, moram os demais integrantes da comissão técnica do time e outros brasileiros que trabalham com esporte no país, como Marcos Paquetá, técnico da seleção líbia. Ferreira lembra que, no dia 16, antes de os confrontos começarem, Kadafi esteve no clube para inaugurar a nova sede. Cerca de 5 mil pessoas estavam presentes. "Kadafi foi ovacionado. Há muita gente que o apoia por aqui."

Enquanto aguardam, os brasileiros se mantêm informados como podem. Apesar do bloqueio a alguns sites, eles têm conseguido falar com as famílias por Skype.

Retirada. Ontem à noite, o Itamaraty divulgou um comunicado segundo o qual um barco resgatará os funcionários da Queiroz Galvão em Benghazi e os levará a Malta. Segundo o Itamaraty, as embaixadas em Cairo, Roma e Atenas se mobilizaram para resolver a situação dos brasileiros na cidade. O resgate deve ocorrer entre hoje e amanhã. O governo francês colocou à disposição do Brasil dois aviões com autorização de pouso na Líbia, informou ontem a chanceler Michèle Alliot-Marie, após encontro com o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota. / COLABOROU RAFAEL MORAES MOURA

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