Apreensivos, brasileiros da região estocam comida

Produtores que buscaram no país terra barata e fértil temem ação de setor que os vêem como ?ameaça imperialista?

O Estadao de S.Paulo

15 de dezembro de 2007 | 00h00

Os temas que preocupam os brasileiros são as duas medidas polêmicas anunciadas recentemente. De um lado, Santa Cruz e outros três departamentos (equivalentes a Estados) prometem declarar autonomia unilateralmente de La Paz, o que pode causar conflitos no Oriente do país.Do outro, o governo pretende aprovar um polêmico projeto de Constituição que amplia os poderes do Estado na economia e aumenta as incertezas sobre quem investe ou tem propriedades na Bolívia.Renata conta que alguns de seus amigos e parentes estão se preparando para as incertezas dos dias que se seguirão a anúncio da autonomia crucenha comprando mantimentos, estocando água e até tirando o dinheiro do banco, temendo que a situação política termine em hecatombe. "Pode ser um exagero, mas não custa prevenir", diz. A paranaense Rossana Niero, estudante de medicina, concorda. Por via das dúvidas ela está só esperando os exames do final do ano na faculdade para retornar para o Brasil. "Minha família está preocupada com as notícias que saem daqui e me pediu que voltasse o mais rápido possível", diz.Já William Alvarenga, dono de uma loja de eletrônicos no centro da cidade, diz que nos seus mais de 20 anos no país aprendeu que "tudo é possível" quando o assunto é política na Bolívia.Se é verdade que a história boliviana é marcada por revoluções, guerras e trocas de governos (foram 6 nos últimos 10 anos), também é uma tradição política do país que os dois lados em disputa caminhem firmes até a beira do precipício, para então dar um passo para atrás."No momento eu não vejo nenhuma saída para o impasse entre os líderes locais com o governo, mas é possível que ela apareça a qualquer momento", diz Alvarenga. "De qualquer forma, é sentar e esperar porque eu também não tenho um plano B". Entre os mais apreensivos estão os agricultores, para quem a Bolívia sempre foi uma terra prometida. A terra é barata e tão fértil que um deles contou estar produzindo soja há anos sem ter nunca precisado usar adubo.Os custos de produção também são baixíssimos. O salário mínimo, por exemplo, é de 500 bolivianos (pouco mais de R$120,00). Escoar a produção ainda é difícil - precário é pouco para descrever o estado das estradas do país -, mas há esperanças de que a situação melhore no futuro, com a construção de uma rede de estradas que o ligará o porto de Santos com a costa chilena.O grande porém, no momento, é a política do presidente Evo Morales para o setor.Com o apoio dos pequenos camponeses e indígenas, Evo elegeu-se prometendo uma "revolução agrária". Há um ano ele conseguiu que o Senado aprovasse a Lei de Terras, cujo objetivo era redistribuir 20% das terras cultiváveis da Bolívia até 2010.Segundo as previsões iniciais, a maioria das terras que serão utilizadas na reforma ficariam nos Departamentos de Santa Cruz, norte de La Paz e Pando. "Agora terminam os latifúndios na Bolívia", disse o presidente na época.Meses depois, Evo decretou o resgate da soberania na fronteira, pressionando pela saída de 10 mil famílias de brasileiros que vivem e trabalham numa faixa de 50 quilômetros a partir da fronteira com o Brasil. Agora, é a briga com Santa Cruz e a nova Constituição que trazem uma nova carga de incertezas. O projeto de Carta reforça o princípio de que toda a propriedade que não cumpra uma "função social" está sujeita a expropriação."Suas disposições tornam mais instável o ambiente para os investimentos no setor, o que só tende a se acentuar com as tensões políticas" diz Nilson Medina, brasileiro naturalizado na Bolívia que é um dos maiores produtores de soja do país.Para muitos proprietários de terra, o medo é que o presidente boliviano sucumba às sugestões dos setores mais radicais de seu movimento político, que vêem no Brasil uma ameaça imperialista."Estamos nos dando conta de que, na realidade, o que o governo boliviano quer implementar é um modelo de propriedade comunitária, indígena", diz Medina. "O problema é que isso muitas vezes é incompatível com a Bolívia moderna e competitiva que nós viemos ajudar a criar."

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