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REUTERS/Charles Platiau/File Photo
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Aprendizes do terror

Como se viu em Osny, podem estar sendo criadas no coração da França incubadoras de bestas selvagens que estariam apenas esperando a libertação para formar, com outros delirantes, uma horda de feras à solta nas noites sangrentas da Europa

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

09 de setembro de 2016 | 05h00

Vejam o que acaba de acontecer numa prisão francesa em Osny, na região metropolitana de Paris. Não foi numa penitenciária qualquer, mas numa das cinco prisões nas quais existe um núcleo de segurança em que são confinados jihadistas perigosos. Aqueles que, num presídio comum, contaminariam ideologicamente outros detentos. Em Osny, estão em seu ambiente, entre outras sementes ruins. 

Esses blocos são conhecidos como “unidades de prevenção da radicalização”. No domingo, em Osny, durante uma caminhada de exercício, o preso Bilal Raghi puxou uma faca feita com uma haste de metal arrancada da janela de sua cela.

Em 14 segundos, deu nove facadas num carcereiro, procurando atingi-lo na cabeça, para garantir a morte. O guarda da prisão sobreviveu, banhado em sangue. Dado o alarme, passaram-se duas horas, durante as quais Bilal circulou por dois andares da prisão e aproveitou para desenhar um coração na parede com o sangue da vítima. Depois, rezou até ser posto fora de combate por uma bala de borracha. 

Cena incomum. A cena foi violenta, mas não é incomum em um ambiente penitenciário. O que intrigou os carcereiros, no entanto, foi o comportamento dos outros detentos. Assistiram a tudo e, depois da confusão, conversaram normalmente com Bilal Raghi. Nenhum deles interveio. Não mostraram nenhum nervosismo, como se não tivessem sido surpreendidos. 

Essa indiferença, segundo os agentes da prisão, é intrigante. Numa penitenciária comum, após um incidente desse tipo, os outros presos tentariam dissuadir o agressor, imobilizá-lo ou mesmo tomar sua arma e convencê-lo a se render.

No entanto, ali não ocorreu nada disso. O jihadista se beneficiou no mínimo de uma “compreensão cúmplice”. As autoridades interpretaram o caso como prova do fracasso dessas prisões nas quais jihadistas radicais são isolados. 

Ao que parece, apesar das “reuniões de desradicalização” conduzidas por carcereiros especializados, os jihadistas se mantêm inflexíveis. Longe de se socializar, se puderem, eles acabam se radicalizando ainda mais. E formam entre si um grupo compacto, que não se fragmenta – ao contrário, tende a endurecer. 

Volta a velha pergunta: o que fazer com os jihadistas mais radicais? Jogá-los numa prisão comum, correndo o risco de contaminarem delinquentes menores? Isso equivaleria a institucionalizar, no coração do sistema carcerário, professores de jihadismo, pregadores da morte que, de um simples traficante, formariam logo um “louco de Deus”. 

Incubadoras. Foi justamente para que se evitasse esse processo de contágio que se pensou nos blocos de segurança, nos quais os radicais ficam separados dos malfeitores comuns.

No entanto, como se viu em Osny, podem estar sendo criadas no coração da França incubadoras de bestas selvagens que estariam apenas esperando a libertação para formar, com outros delirantes, uma horda de feras à solta nas noites sangrentas da Europa. Há uma terceira via? Talvez, mas exigiria investimentos fora de cogitação. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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