EFE/Chris Kleponis
EFE/Chris Kleponis

Aprovação entre eleitor republicano deixa Trump longe de impeachment

Popularidade do presidente cai, mas ainda é de 85% entre seguidores do Partido Republicano; segundo especialistas, este é o público que poderia convencer parlamentares da legenda a abandonar chefe de Estado americano, que domina Câmara e Senado

Cláudia Trevisan CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2017 | 05h00

Sucessor de Richard Nixon após sua renúncia, em 1974, Gerald Ford tinha uma das mais realistas definições dos motivos que podem levar ao afastamento de um presidente dos EUA: “Uma ofensa passível de impeachment é qualquer uma que a maioria da Câmara dos Deputados decidir em um dado momento da história”.

Ainda que sujeita a debates entre acadêmicos, a fórmula foi testada na prática e, por enquanto, trabalha a favor de Donald Trump. Com maioria na Câmara e no Senado, popular no eleitorado republicano, é pouco provável que o presidente seja alvo de um processo de afastamento do cargo neste momento, avaliam especialistas ouvidos pelo Estado.

No espaço de menos de dez dias, Trump demitiu o diretor do FBI James Comey e foi acusado de revelar informações confidenciais a emissários de Moscou e de pressionar Comey a abandonar uma investigação sobre Michael Flynn, ex-conselheiro de Segurança Nacional.

“Nunca vi uma semana como essa em toda a minha carreira”, disse Clifford Young, diretor do instituto de pesquisas Ipsos. A turbulência abalou a popularidade de Trump, que caiu 9 pontos, de 47% para 39%. Sua aprovação também recuou entre os eleitores republicanos, mas ainda está em 85%, o suficiente para desencorajar qualquer parlamentar do partido a se aventurar em um pedido de impeachment.

“Odeio ser cínico, mas a posição dos republicanos em relação ao impeachment só mudará se Trump se tornar um grande passivo para a própria sobrevivência política dos parlamentares e houver indicações de que eles perderão a maioria na Câmara e no Senado em razão da impopularidade do presidente”, afirmou Geoffrey Kabaservice, consultor do partido e autor do livro Rule and Ruin (Governar e Arruinar), no qual descreve a perda de espaço dos moderados dentro da legenda. 

Ele crê que os republicanos resistirão em seguir o caminho do impeachment, que representaria uma derrota para o partido. “Seria um grande escândalo e os republicanos demorariam anos para se recuperar. E os eleitores de Trump provavelmente nunca os perdoariam. Seriam vistos como cúmplices de um golpe contra um presidente eleito.”

Segundo Kabaservice, nem mesmo os democratas estão adotando uma posição agressiva em favor do afastamento do presidente, pelo temor de repetir o comportamento dos republicanos durante o processo de impeachment do ex-presidente Bill Clinton. Na época, a oposição controlava a Câmara e sua ação foi percebida como partidária pelos americanos. A consequência foi o aumento da popularidade de Clinton, que acabou absolvido no Senado.

“Não há nenhuma chance nesse momento”, concordou o cientista político Arthur Lupia, professor da Universidade de Michigan. Em sua avaliação, o que pode mudar esse cenário é uma evidência direta da prática de crime pelo presidente. “Sem isso, é improvável que um grande número de republicanos apoie o impeachment.”

O partido de Trump tem 238 das 435 cadeiras da Câmara, que precisaria aprovar a abertura de um processo de afastamento contra o presidente. Os democratas controlam 193 cadeiras e outras 4 estão vagas.

Mas Trump tem diante dele um terreno minado, que poderá mudar o cálculo de seus aliados no Congresso. A principal fonte de incerteza é a nomeação de um promotor especial para comandar as investigações sobre eventual conspiração entre integrantes de sua campanha e o governo russo para influenciar a eleição do ano passado. 

Protegido de pressões políticas do Executivo e do Legislativo, o ex-diretor do FBI Robert Mueller terá amplos poderes para requerer documentos e convocar depoimentos. “Ninguém sabe o que ele poderá encontrar”, afirmou Kyle Kondik, do Centro para Política da Universidade da Virgínia. “Podemos chegar a um ponto em que os republicanos considerem necessário agir em razão de alguma informação comprometedora contra o presidente ou de uma queda acentuada de sua popularidade entre os eleitores do partido.”

Mesmo que as discussões sobre impeachment percam força, Trump terá dificuldade em aprovar sua agenda legislativa. “Não vai acontecer nada”, opinou Young. Segundo ele, quando a popularidade de um presidente cai para o terreno próximo de 35%, ele perde a habilidade de promover suas propostas. Os parlamentares passam a pensar na própria sobrevivência, ressaltou.

Kabaservice lembrou que Trump já enfrentava problemas no Congresso antes da crise, que deverá agravá-los. A maior dificuldade é obter consenso entre a extrema direita e os moderados do Partido Republicano. “Uma versão moderada o bastante para ser aprovada no Senado, não é conservadora o bastante para ser aprovada na Câmara”, observou, em referência à proposta de reforma do Obamacare.

A tese do impeachment poderá ganhar força caso os democratas conquistem a maioria da Câmara na eleição de meio de mandato do próximo ano, cenário que hoje é o mais provável de acordo com sondagens da Ipsos. “O Senado ainda teria de aprovar o afastamento por maioria de dois terços”, explica Lupia.

 

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