Aprovada suposta renúncia do presidente de Honduras

O Congresso de Honduras votou a aceitação do que chamou de uma carta de renúncia do presidente Manuel Zelaya, horas depois de soldados terem detido o presidente e o enviado de avião para a Costa Rica. O secretário do Congresso, Jose Alfredo Saavedra, leu a carta assinada por Zelaya e datada de quinta-feira. Numa eleição em que os membros do congresso levantaram as mãos para votar, a maioria aprovou a renúncia.

AE-AP, Agencia Estado

28 de junho de 2009 | 17h04

Mas Zelaya disse à rede CNN que a renúncia era "totalmente falsa" e que ele continua a ser o presidente. A carta atribui a renúncia à "situação política polarizada" e a "problemas de saúde". Soldados invadiram o palácio nacional nesta manhã e levaram o presidente de Honduras para o exílio na Costa Rica, horas antes da realização de um referendo constitucional. Zelaya, um esquerdista aliado do presidente venezuelano Hugo Chávez, disse que foi vítima de um golpe militar.

A Suprema Corte do país disse que estava apoiando os militares no que chamou de defesa da democracia. O embaixador hondurenho na Organização dos Estados Americanos (OEA), disse que os militares estavam planejando empossar o presidente do Congresso, Roberto Micheletti, para substituir Zelaya.

O presidente de Honduras foi detido pouco antes do início do plebiscito que iria definir se a Constituição do país poderia ser modificada. A Suprema Corte decidiu que o referendo era ilegal. Membros do Congresso e integrante do próprio partido de Zelaya eram contrários à realização da votação. Críticos disseram que Zelaya queria acabar com as limitações à sua reeleição.

Ainda não se sabe quem está comandando o governo. Tanques estão nas ruas e centenas de soldados com escudos cercam o palácio presidencial na capital Tegucigalpa. Segundo a Constituição, o chefe do Congresso, Micheletti, é o seguinte na linha sucessória da presidência, seguido pelo chefe de Justiça da Suprema Corte.

Ao chegar ao aeroporto da capital da Costa Rica, San José, Zelaya disse que a ação militar era ilegal. "Não há como justificar um interrupção da democracia, um golpe de Estado", disse ele pelo telefone para a rede de televisão venezuelana Telesur. "Este sequestro é uma extorsão do sistema democrático hondurenho".

Zelaya disse que não vai reconhecer nenhum outro governo do país e prometeu concluir seu mandato, que termina em janeiro. Ele disse que vai comparecer à reunião dos presidente de países da América Central na Nicarágua na segunda-feira. Segundo ele, Chávez, que também vai participar do encontro, vai providenciar seu transporte.

Chávez, que juntamente com Raúl e Fidel Castro em Cuba, é grande aliado de Zelaya, disse que a Venezuela "está em guerra" e colocou seu Exército em alerta. O presidente Barack Obama disse que estava "muito preocupado" com a expulsão de Zelaya e a secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton disse que a prisão do presidente hondurenho deveria ser condenada.

Zelaya disse à Telesur que foi acordado por tiros e gritos de seus seguranças, que, segundo o presidente, resistiram às tropas por pelo menos 20 minutos. Ainda de pijama, pulou da cama e se escondeu atrás de um aparelho de ar-condicionado para não ser atingido pelas balas. Ele contou que oito ou nove soldados mascarados o levaram para um avião da Força Aérea que foi para a Costa Rica.

Chávez disse que as tropas hondurenhas também detiveram temporariamente os embaixadores da Venezuela e de Cuba e que os diplomatas foram espancados. Zelaya pediu que os soldados hondurenhos desistam, que os cidadãos tomem as ruas em protestos pacíficos e que a polícia proteja os manifestantes.

Um aliado de Zelaya, o líder trabalhador Rafael Alegria, convocou protestos. "Nós exigimos o respeito pela vida do presidente", disse ele à rádio hondurenha Cadena de Noticias. "E vamos para as ruas para defender o que isso nos custou: viver em paz e tranquilidade".

Cerca de 100 partidários de Zelaya, muitos usando camisetas nas quais se lia "sim" ao plebiscito, bloquearam as principais ruas do lado de fora dos portões do palácio, atirando pedras e insultando, os soldados e gritando "Traidores! Traidores!". "Eles o sequestraram como covardes", gritou Melissa Gaitan. Lágrimas escorriam da face da mulher de 21 anos que trabalha na emissora de televisão do governo. "Nós temos de reunir as pessoas para defender nosso presidente".

Honduras tem uma longa história de golpes militares. Soldados depuseram presidente eleitos em 1963 e 1972. Os militares não permitiram um governo civil até 1981, sob pressão norte-americana. Micheletti é um dos principais opositores do presidente na disputa sobre o referendo. O chefe da Suprema Corte também se opôs ao plebiscito que perguntaria aos eleitores se eles queria a convocação de uma assembleia para reescrever a Constituição.

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