Aproximação de Cuba com Vaticano marca história de 3 papados

Francisco foi o grande interlocutor, mas não se pode esquecer do papel de seus predecessores João Paulo II e Bento XVI

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

21 de dezembro de 2014 | 02h03

O papa Francisco foi o grande interlocutor que, por empenho pessoal e capacidade de diálogo, ajudou Cuba e Estados Unidos a reatar relações diplomáticas, mas não se pode esquecer o papel que seus predecessores João Paulo II e Bento XVI desempenharam para se chegar a esse "milagre", após mais de meio século de rompimento. O argentino Jorge Mário Bergoglio, que ganhou esse presente de aniversário no dia 17, quando completou 78 anos, atribuiu à habilidade e à paciência dos diplomatas - incluindo os negociadores da Santa Sé - o mérito da reaproximação entre Havana e Washington.

Essa modéstia não lhe tira o mérito dos telefonemas entre ele e os presidentes Raúl Castro e Barack Obama, para costurar o acordo anunciado na quarta-feira.

Quem abriu caminho para o entendimento foi o polonês João Paulo II. Ele chegou ao pontificado com uma demonstração de simpatia do então presidente Fidel Castro, que, apesar das divergências ideológicas, lhe sugeriu uma escala em Cuba, em sua viagem ao México, para a assembleia dos bispos latino-americanos e do Caribe, em Puebla, em fevereiro de 1979.

O Vaticano descartou o roteiro, com o argumento de que uma visita a Havana teria de ser preparada com mais tempo, sobretudo porque a Igreja não tinha total liberdade para exercer sua ação religiosa em Cuba. A situação melhorou nos anos seguintes, permitindo a João Paulo II realizar uma visita a Havana e mais três cidades cubanas em janeiro de 1998.

Era uma peregrinação pastoral para levar força e solidariedade aos católicos, mas também uma visita de Estado. Fidel Castro recebeu João Paulo II com cortesia e emoção. O papa defendeu os direitos humanos e liberdade de culto religioso, mas também condenou o embargo econômico imposto à ilha pelos Estados Unidos - e o governo cubano lhe ficou grato por essa postura política e humanitária. Na missa celebrada na Praça da Revolução, em Havana, o papa condenou os "sistemas ateístas" e o "neoliberalismo capitalista".

Bento XVI retomou os mesmos temas, ao visitar Santiago de Cuba e Havana, em março de 2012, um ano antes de renunciar ao pontificado. Não usou a palavra embargo, mas reiterou o que o governo de Cuba, já, na época, conduzido por Raúl Castro, esperava (e receava) ouvir. Suas palavras: "Que ninguém se veja impedido de tomar parte nessa tarefa apaixonante (a busca de uma sociedade de largos horizontes, renovada e reconciliada) pela limitação das suas liberdades fundamentais, nem eximido dela por negligência ou carência de recursos materiais; situação esta, que fica agravada quando medidas econômicas restritivas impostas de fora ao País pesam negativamente sobre a população."

João Paulo II e Bento XVI atuaram nos bastidores, em encontros e troca de correspondência, com os governantes de Cuba e dos Estados Unidos, mas foi Francisco quem marcou o tento final. Ele enviou uma carta aos dois presidentes, americano e cubano, "convidando-os a superar os obstáculos existentes entre os seus países e chegar a um acordo", conforme revelou o secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin, em entrevista à Rádio Vaticano. "Tudo isso, certamente, é devido ao fato de o papa Francisco vir daquela região", observou o cardeal.

Tudo o que sabemos sobre:
CubaEstados UnidosVaticano

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.