Aproximação de Rússia e China não é propaganda

Sanções obrigaram o Kremlin a acelerar a diversificação de mercados e a dar mais atenção às enormes regiões orientais subdesenvolvidas do país

LEONID BERSHIDSKY*, BLOOMBERG NEWS

28 de junho de 2015 | 02h33

A busca de investidores e de mercados alternativos tem sido uma prioridade política do presidente Vladimir Putin e seu governo desde que países ocidentais impuseram sanções econômicas à Rússia no ano passado. A virada resultante, em direção à China, pode parece meramente cosmética, mas está ocorrendo.

Evidentemente, a maior parte dos mega-acordos vagos e de longuíssimo prazo assinados pelos governos dos dois países no ano passado não terá nenhum efeito imediato. Mesmo assim, a China se tornou uma das duas maiores fontes de financiamento e investimento da economia russa. A outra questão é o dinheiro que empresas russas guardaram em paraísos fiscais e trazem para o país conforme as necessidades. A participação chinesa no comércio russo também está crescendo.

A Rússia recebeu somente US$ 21 bilhões em investimento estrangeiro líquido direto no ano passado, ante US$ 69,2 bilhões em 2013. A maior parte do dinheiro veio de paraísos fiscais como Chipre, Bahamas e Ilhas Virgens Britânicas. Entre os países de origem que não são paraísos fiscais, a China, com seu US$ 1,3 bilhão de investimento direto só ficou atrás da França. A quantia é pequena, mas sinaliza uma mudança: em anos anteriores, o investimento chinês jamais excedeu US$ 450 milhões.

Ao mesmo tempo, empréstimos chineses se tornaram, de longe, a maior fonte de financiamento estrangeiro para a economia russa no ano passado. Segundo dados do Banco Central russo, o setor não financeiro e as famílias da Rússia receberam US$ 11,6 bilhões em empréstimos novos líquidos da China. Chipre - ou melhor, empresas russas operando em Chipre - foi o segundo maior emprestador, com US$ 3,4 bilhões.

O quadro é radicalmente diferente em comparação com apenas dois anos atrás. Em 2013, a Grã-Bretanha dominou os empréstimos à Rússia, com US$ 23 bilhões em empréstimos novos líquidos; a China contribuiu com US$ 7,5 bilhões. No entanto, o aumento da China não foi suficiente. No ano passado, esses recursos não conseguiram cobrir o fluxo líquido de saída de dinheiro para países europeus e, no conjunto, os empréstimos líquidos caíram US$ 6,3 bilhões. Sem o aumento da China, essa saída teria sido 65% maior.

Este ano, haverá provavelmente um novo salto nos empréstimos chineses graças a um acordo recente que permite que empresas russas levantem US$ 25 bilhões de bancos da China com garantias do governo russo.

Boa parte dos empréstimos chineses estão indo para companhias russas de petróleo, especialmente para a estatal Rosneft, que foi forçada a utilizar fundos de reserva do governo em razão das sanções ocidentais.

A Rosneft também aumentou as vendas para a China, onde pode ter acesso a financiamento comercial de longo prazo que já não está disponível na Europa. Em maio, a Rússia enviou 930 mil barris de petróleo por dia à China, superando a Arábia Saudita nesse mercado pela primeira vez.

Apesar de as bases para esse aumento da participação de mercado terem sido assentadas antes da tentativa ocidental de isolar a Rússia, a Rosneft poderia ter estado menos disposta a enviar tanto petróleo à China não fosse a mudança nas oportunidades de financiamento.

Crescimento. O comércio da Rússia com a China encolheu com a estagnação da economia, mas a queda foi bem menor do que a verificada com outros grandes parceiros comerciais, em parte pelo aumento das exportações de petróleo. No primeiro trimestre de 2015, o comércio total da Rússia com a União Europeia encolheu 37,5%, mas a China viu uma queda menor, de 29,4%, aumentando sua participação no mercado russo.

Companhias europeias reconheceram a tendência. Este mês, a BP apostou no crescimento do comércio de energia da Rússia com a China ao pagar US$ 750 milhões por uma participação de 20% na Taas-Yuriakh Neftegazodobycha, uma subsidiária da Rosneft, licenciada para operar um grande campo de petróleo perto da fronteira setentrional da China.

Outra área em que a Rússia precisa de financiamento e tecnologia chineses é a infraestrutura. Este mês, a estatal China Railroad Group assinou um contrato com o monopólio ferroviário russo para projetar uma ligação ferroviária de alta velocidade entre Moscou e Kazan. Em seguida, a Rússia pretende estender a rede até Pequim, reduzindo a duração da viagem entre as duas capitais de sete dias para 48 horas. Em anos anteriores, o contrato provavelmente teria ido para amigos bilionários de Putin. Agora, porém, a necessidade de financiamento - que a China fornecerá às empreiteiras - adquire prioridade até mesmo em detrimento de interesses pessoais.

O governo russo se tornou disposto a considerar acordos com a China que seriam impensáveis antes das sanções. Uma das regiões do extremo leste da Rússia assinou recentemente uma carta de intenções para arrendar 115 mil hectares de terra agrícola não utilizada a uma companhia chinesa. Isto causou indignação na imprensa e nas redes sociais russas: os russos sempre evitaram dar acesso à China às vastas extensões siberianas, suspeitando que, se os trabalhadores chineses chegarem, não sairão mais e a Sibéria e o extremo leste acabarão se tornando colônias chinesas.

Seria errado desconsiderar a virada da Rússia para a China como uma mera campanha de relações públicas para convencer os russos de que seu país pode se virar sem o Ocidente. A Rússia é um grande navio e mudar seu rumo não é fácil, mas a tendência para laços econômicos mais estreitos com a China é real.

A esse respeito, as sanções fizeram um favor à Rússia. Elas obrigaram o regime a acelerar uma muito necessária diversificação de mercados e a dar mais atenção às enormes regiões orientais subdesenvolvidas do país. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*É COLUNISTA

 

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